Segunda parte do artigo de Rober Pinheiro sobre a série A Song of Ice and Fire, de George RR Martin.
Os Livros:
Canção de Gelo e Fogo é, sem dúvida, uma das obras de maior êxito dentro do gênero fantástico, seja pelo grande número e complexidade das personagens que permeiam suas páginas, pela súbita e violeta mudança das linhas narrativas ou pelo intrincado jogo de tramas políticas que formam a espinha dorsal de sua linha de argumentação.
Também cabe ressaltar que em sua concepção há muito pouco da literatura dita juvenil que se multiplica às pencas por aí. A história em si é mais complexa, adulta, com um limite bem demarcado entre o real e o fantástico — a magia, quando aparece, é tratada com sutileza e geralmente de forma ambígua, muitas vezes, negativa —, além de não fugir de temas cujo conteúdo poderia gerar olhares de reveses dos mais puritanos, como a violência, o sexo ou até mesmo temas tabus, como o incesto. Martin, aliás, tornou-se famoso por quebrar paradigmas, como a já conhecida falta de apego às suas criações. As personagens de sua saga estão tão fadadas à morte quanto quaisquer outras criaturas. Tudo, claro, virá da necessidade da trama e dos caminhos que a história deve seguir.
Aparte de todos estes atributos, um dos aspectos mais inovadores de ASoIaF é a forma como a história vai sendo construída. Cada capítulo é visto sob o ponto de vista de uma personagem distinta que narra/vê os acontecimentos a sua volta segundo uma ótica bem particular. Isto cria um viés deveras interessante, pois para um mesmo episódio tem-se narrados os fatores a partir de olhares diferentes. Além do que, devido à forma realista com que Martin constrói suas personagens, fica extremamente difícil classificá-los como bons ou maus. Em última instância, eles nada mais são que humanos, tristes e miseráveis humanos e a visão que compartilham com o leitor está, justamente, impregnada destas vivências e emoções.
Um problema que particularmente vejo nesta forma de narrativa é o espaço vago que há entre uma e outra aparição das personagens. Como são muitos os pontos de vistas presentes no decorrer da história — apenas nos quarto primeiros livros cerca de 25 diferentes narradores já deram às caras — às vezes é necessário esperar dezenas de páginas para ver uma personagem reaparecer, muitas vezes completamente fora da situação em que se encontrava anteriormente. Isso gera uma confusão de sentidos e, até certo ponto, de entendimento. Porém, nada que prejudique a leitura como um todo.
Outro aspecto interessante é que os livros não giram em torno do eterno maniqueísmo da luta bem versus mal ou na busca pelo escolhido que livrará o mundo da destruição. Sua linha narrativa está centrada principalmente nas lutas políticas e nas guerras civis que assolam aquela pequena grande parte do mundo. De fato, entre todos os arcos narrativos, há apenas um ou dois que sugerem a possibilidade de uma ameaça externa.
Uma curiosidade: o título da série é mencionado apenas duas vezes ao longo de toda a historia narrada até aqui. A primeira delas aparece durante uma visão que Daenerys tem no segundo livro da série, A Clash of Kings (Choque de Reis, em tradução livre): “Ele é o príncipe prometido e sua é a canção de gelo e fogo”. Estas palavras são proferidas por um rei Targaryen, embora não fique claro qual rei seja nem a quem as palavras são dirigidas, se a própria Daenerys ou a seu filho natimorto. A segunda vez em que é mencionada é durante a renovação dos juramentos de lealdade dos irmãos Reed a Brandon Stark, cena também presente no livro A Clash of Kings.
Aparte dos sete tomos principais, outros três livros curtos podem ser incorporados à série como uma espécie de prólogo, já que se passam no mesmo mundo, porém aproximadamente 90 anos antes dos eventos narrados em ASoIaF. Dos três, The Hedge Knight (O Cavaleiro Errante, em tradução livre) e The Sworn Sword (A Espada Leal), já foram publicados e The Mystery Knight (O Cavaleiro Misterioso) tem sua data de lançamento prevista para 2009. As histórias, conhecidas como Os Contos de Dunk e Egg, também foram adaptados para as HQ’s por Ben Avery e Mike S. Miller e lançados em 2007 pela Marvel Comics, alcançando um relativo sucesso.
Vários capítulos dos livros já lançados foram compilados em coleções seguindo o destino de algumas personagens ou os lugares onde se ambientavam partes das histórias. O mais famoso deles é Sangue de Dragão (Blood of the Dragon, no original), baseado nos capítulos sobre Daenerys Targaryen constantes no livro A Game of Thrones. Este excerto ganhou o premio Hugo de melhor livro em 1997.
Embora possuam personagens / narradores que contam a história através de seus pontos de vistas, de suas vivências e anseios pessoais, os livros seguem, regra geral, por três grandes arcos argumentativos principais que se passam em Ponente e em parte do continente oriental de Essos, mais precisamente nas cidades livres e nas terras dos Dothraki.
O primeiro deles transcorre em Ponente e narra a luta entre casas rivais pela posse do Trono de Ferro após a morte do rei Robert Baratheon. O primeiro a reclamar o trono é seu filho mais velho, Joffrey, cujo apoio para tal empreitada vem da poderosa família de sua mãe: a Casa Lannister. Ao mesmo tempo, Stannis Baratheon, irmão mais velho do rei, reclama o trono para si por acreditar que os filhos de Robert são, na realidade, o produto da relação incestuosa entre a rainha Cersei e seu irmão, Jaime Lannister, chamado de Matador de Reis. Ao mesmo tempo, o irmão mais novo da Casa Baratheon, Renly, também reclama o trono para si, apoiado pela poderosa família de sua esposa Margaery, a Casa Tyrell. Com o reino se esfacelando, as casas do Norte proclamam Robb Stark, herdeiro de Eddard Stark, a antiga Mão do Rei, como Rei no Norte, buscado tornarem-se novamente independentes do poder do Trono de Ferro. De forma parecida, Balon Greyjoy, senhor das Ilhas de Ferro reclama para si o trono e a independência desta região.
O segundo arco de histórias se passa no norte de Ponente, na região gelada onde foi construída a grande Muralha de Gelo. Este arco segue principalmente as aventuras de Jon Neve, filho bastando de Lorde Eddard Stark e sua ascensão na hierarquia da Guarda da Noite que, por esta época, encontra-se bastante defasada de homens e de status. Ao mesmo tempo em que tenta manter longe a ameaça dos povos selvagens, liderados pelo Último Rei Além do Muro, Jon vai descobrindo a verdadeira natureza da ameaça que vem das desconhecidas terras do norte.
O terceiro arco se passa no continente oriental de Essos e segue os passos de Daenerys Targaryen, chamada de Filha da Tormenta, a última descendente da Casa Targaryen que também reclama para si o Trono de Ferro, como última herdeira dos antigos reis dragões. Ao longo desta parte da historia, descobrimos como Daenerys se transforma, de fugitiva, em uma rainha astuta e poderosa, senhora de muitos segredos e mãe dos últimos dragões vivos.
Durante o primeiro livro, os três arcos argumentativos se mantêm coesos, aparecendo de forma homogênea. Entre o segundo e o terceiro, chamado de A Storm of Swords (Tormenta de Espada, em tradução livre), o foco é mais voltado para as intrigas internas e as consequências da Guerra dos Cinco Reis pelo trono de Ponente. No quarto livro, A Feast for Crows (Festim de Corvos), no entanto, a coisa já muda um pouco de figura. Martin é um escritor ávido por detalhes, e o resultado disto é a inacreditável quantidade de informações presentes em sua obra. Com o desenrolar da história, os livros tornaram-se cada vez mais volumosos para conseguir conter todas as personagens e seus enredos. O terceiro livro, por exemplo, saiu com a exorbitante quantia de 1022 páginas (tão absurda que em muitos países onde foi traduzido, como Espanha, Portugal e França, ele foi dividido em duas edições distintas).
Tentando por um pouco de ordem nesse exagero, Martin decidiu dividi-la em partes, obedecendo aos seguintes critérios; um livro contaria as aventuras das personagens cujas histórias se passariam no continente, enquanto o seguinte traria as escaramuças das personagens do norte e das terras além de Ponente. Assim, enquanto A Feast for Crows traria as histórias da corte e demais localidades dos Sete Reinos, A Dance with Dragons (Dança com Dragões, em tradução livre), o quinto livro da série, daria enfoque às personagens que estão no norte (Jon Neve e Samwell Tarly, principalmente) e de além mar (Gata dos Canais e Daenerys Targaryen, entre outros). Espera-se que o mesmo procedimento seja adotado também para os livros restantes, The Winds of Winter e A Dream of Spring.
Porém, independente do caminho escolhido por Martin para apresentar o desfecho de suas personagens, o fato é que esta série já é um sucesso comprovado, seja em livros, jogos, suvenires ou HQ’s. Tanto que os direitos autorais foram recentemente adquiridos pela rede de TV norte-americana HBO, que pretende transformá-la em uma série nos mesmos moldes do que foi feito com Roma e The Tudors. Os produtores David Benioff e D.B. Weiss, que estão a cargo da adaptação são, inclusive, os responsáveis por estes dois sucessos.
Agora, a dúvida: diante de tão boa publicidade, resta saber o que mais falta para que alguma editora brasileira perceba o potencial desta série e resolva trazê-la, com todos os tils e ãos necessários ao entendimento de nossa língua mater, para o Brasil.
“O Inverno está chegando”.
Ao se ler ASoIaF, tem-se a estranha sensação de que, dentre todos os lemas das muitas Casas Nobres que desfilam diante de nossos olhos ao longo de toda a série, é a divisa da Casa Stark aquela que parece ser a apropriada às personagens como um todo. Há uma certa fatalidade na maneira de escrever de Martin, como se todos os caminhos levassem ao norte, ao desespero final, como se a vida fosse feita de momentos efêmeros e de esquecimentos e que apenas o final, inevitável, fosse eterno.
Mas, mesmo diante da fatalidade da vida, ainda há a esperança dos dias vindouros. E, talvez, ela venha ligeira nas asas de algum dragão, ou desponte junto ao primeiro raio de sol do verão longínquo. Mas, enquanto isso, é bom que nos preparemos para o longo inverno que se aproxima.
Links de interesse:





August 18th, 2009 at 6:17 pm
[...] Segunda parte do artigo. Site do autor Rober Pinheiro. Artigos Fantastik.com.br – design de Carolina Vigna-Maru [...]
February 4th, 2010 at 5:43 pm
[...] a saga, o autor de fantasia Rober Pinheiro escreveu um artigo excelente para o Fantastik (parte 1 e parte 2). Com direito a foto do velhinho barbudo George RR [...]