Artigo de Rober Pinheiro sobre a série A Song of Ice and Fire, de George RR Martin.

Quando, em 1455, Ricardo de York liderou três mil homens na direção de Londres e derrotou Henrique VI, rei da Inglaterra, naquela que ficou conhecida com a Batalha de Saint Albins, a primeira de uma guerra que colocaria em lados opostos as poderosas casas de York e Lancaster, ele jamais poderia imaginar que, quase seis séculos depois, seus feitos serviriam de inspiração para uma das maiores e mais bem sucedidas obras de fantasia épica escritas desde que um hobbit encontrou um anel perdido numa caverna.

GRR Martin

Falo, claro está, da série “Uma Canção de Gelo e Fogo” (A Song of Ice and Fire, no original), do escritor norte-americano George R. R. Martin. Composta por sete livros, dos quais quatro já foram publicados, ASoIaF tornou-se um êxito de crítica e venda, ocupando o topo da lista dos respeitáveis The New York Times e The Wall Street Journal com a expressiva quantia de 2,6 milhões de exemplares vendidos somente nos EUA, além de angariar importantes indicações e prêmios, como o Locus Award, o Nebula e o Hugo Award.

O Autor:
George Raymond Richard Martin nasceu em Bayonne, New Jersey, em 20 de Setembro de 1948. Apaixonado por livros, HQ’s e fanzines, desde cedo demonstrou grande interesse em se tornar escritor. No início da década de 70, começou a escrever pequenas histórias de ficção e fantasia, entre as quais se destacam The Thousand Worlds, uma space opera com temática histórica e Night of the Vampyres, uma ficção político-militar lançada na antologia The Best Military Science Fiction of the 20th Century, de Harry Turtledove. O sucesso, porém, tardou a vir. De fato, uma de suas primeiras histórias foi rejeitada 22 vezes por diferentes revistas, um duro começo. Em 73, With Morning Comes Mistfall, história publicada pela Analog Magazine foi indicada para os prêmios Hugo e Nebula.

No início da década seguinte, Martin ingressou na televisão, onde trabalhou como escritor e produtor para as séries Twilight Zone e A Bela e a Fera. Durante esta temporada em Hollywood, muitos projetos voltados para a área de ficção e fantasia foram desenvolvidos por ele, porém todos sem sucesso. Um dos mais proeminentes foi Doorways, uma ambiciosa série de ficção científica que contava a história de uma fugitiva de um universo paralelo que escapava para nosso mundo através de um portal dimensional, abortada após o episódio-piloto. Outros projetos também foram postos em prática, como as adaptações de Wild Cards, um suplemento de jogos com temática que misturava ficção científica e super-heróis, conhecido no Brasil como Cartas Selvagens, Princess of Mars, a famosa série de ficção de Edgar Rice Burroughs e Fevre Dream, um livro de sua própria autoria, mas Doorways foi o que mais próximo chegou de tornar-se real.

Com efeito, foi no final daquela que Martin considerou como “a década de Hollywood” (1985-1995) que ele, cansado do glamour e das oportunidades perdidas na terra das estrelas, resolveu abandonar a carreira na televisão e se dedicar novamente à arte da escrita. Em 1991, começava a ganhar forma à idéia que originaria o livro A Game of Thrones (Um Jogo de Tronos, em tradução livre), o primeiro da série que o tornaria mundialmente conhecido.

Ironicamente, o que poucos dos aficionados por Martin parecem saber é que ele já conta com mais de 30 anos de carreira, seja na literatura, na televisão ou cinema, atravessando sem a menor dificuldade os gêneros do fantástico, do terror e da ficção científica. E, de fato, seu leque de atuação é bem amplo, indo desde a ficção científica de Tuf Voyaging até os vampiros de Fevre Dream, que cruzaram o Mississipi num barco a vapor em pleno século XIX, passando pelo horror contemporâneo de teor histórico-político de Armagggeddon Rag ou a mistura de space opera e fantasia da coleção de pequenas histórias Windhaven. Também se pode citar uma de suas primeiras incursões pela fantasia, The Ice Dragon, um livro infanto-juvenil onde a presença da magia — em sua acepção mais plena — é bastante acentuada.

Bran Stark

Com ASoIaF, no entanto, Martin foi considerado um entusiasta do novo, o escritor que revolucionou a temática épica e trouxe um novo enfoque para a literatura chamada fantástica. Não obstante, nem por isso ele deixou de buscar inspiração e referência para suas obras em outros autores. Fritz Leiber foi, juntamente com Robert E. Howard, criador de Conan, o Bárbaro e as HQ’s (histórias em quadrinhos) de Stan Lee e Steve Ditko, uma de suas influências assumidas. E, se de fato há um autor a que Martin mais se assemelha, este é Leiber, tal a variedade de temas e gêneros que ambos abordaram ao longo da carreira.

Outros grandes escritores também entraram para este rol de referências. No entanto, embora seja possível reconhecer certo débito para com obras como O Senhor dos Anéis, de Tolkien, The Dragon Masters, de Jack Vance e Tailchaser’s Song, The Memory, Sorrow and Thorn Series e The War of the Flowers, de Tad Williams, a série ASoIaF difere destas outras pelo uso diferenciado da linguagem ficcional e pela abordagem mais incisiva de elementos reais em detrimento da fantasia.

Enquanto Tolkien e Williams buscaram uma acentuada inspiração na mitologia, Martin teve sua influência calcada na história medieval européia, mais notadamente na Guerra das Duas Rosas, no clássico Ivanhoé e nas Cruzadas Albingueses. Não raro, ele costumava citar em suas entrevistas que foi ao ler The Memory, Sorrow and Thorn Series que se convenceu de que poderia escrever uma história mais adulta e madura. Isso acabou criando um novo filão de literatura de fantasia, cujo tratamento do real é muito mais acentuado em relação à fantasia. Filão que já angariou seguidores como Scott Lynch, Joe Abercrombie, Steven Erikson e Scott Bakker. Contudo, mesmo sendo visível esta preocupação com o real, Martin está a milhas de quilômetros do pioneirismo da chamada ficção histórica e, neste campo da fantasia pé no chão, também sofreu influências e, como tal, agradece abertamente a autores como Bernard Cornwell, George MacDonald Fraser e Robert Jordan, cuja capa para seu primeiro livro foi, ironicamente, a responsável por garantir seu sucesso junto aos leitores de fantasia.

O Mundo:
As histórias de ASoIaF se passam, principalmente, no grande continente de Ponente (Westeros, no original), uma vasta extensão de terras similares as ilhas britânicas, porém com aproximadamente o tamanho da América do Sul, tendo ao norte uma imensa área não mensurada, cuja ciência não é possível dadas as suas baixas temperaturas e a pouca cordialidade de seus habitantes, chamados simplesmente de selvagens ou de Povos Livres. Das terras conhecidas, a porção norte têm praticamente o mesmo tamanho da parte sul, porém sua população é infinitamente menor, dado o rigor climático da região. Entre as principais cidades de Ponente destacam-se, por ordem de tamanho, Porto Real, Antigua, Lannisport, Porto Gaivota e Porto Branco.

Jaime Lannister

O mundo imaginado por Martin, contudo, vai muito além de apenas uma terra e uma gente. Outros dois continentes também aparecem no correr da série, numa alusão bem significativa à história do nosso próprio mundo medieval; a leste, depois do Grande Mar está localizado Essos. Em sua porção ocidental encontram-se as nações estrangeiras mais próximas a Ponente, um conjunto de cidades-estados chamadas de Cidades Livres, entre as quais estão Pentos, Braavos e Lys. Nesta porção do mundo encontra-se também a terra dos Dothraki, os Senhores dos Cavalos. Na verdade, terra, aqui, definiria toda a larga extensão das inóspitas plagas centrais do continente oriental, chamadas de Mar Dothraki, onde vivem centenas de grandes caravanas, os khalazares, cujos membros levam uma vida muito similar a dos antigos mongóis, turcos e hunos de nosso próprio mundo. Nas terras ao largo da costa sul deste continente, chamadas de forma genérica de Terras do Mar do Verão, estão localizadas as ruínas da cidade de Ghis e do Feudo Franco de Valyria, onde surgiu a dinastia Targaryen, a mais poderosa casa a governar os Sete Reinos. As terras ao sul de Ponente, chamadas Sothoryos, são praticamente desconhecidas. Delas, sabe-se apenas que são totalmente selvagens, infestadas de pragas e habitada por homens de pele escura, algo claramente próximo a um certo continente negro pouco conhecido durante a idade média.

Não obstante, mesmo sendo o mundo de ASoIaF vasto e bem definido, seu elemento mais característico é o Muro, ou Muralha de Gelo, uma gigantesca construção de mais de 200 metros de altura e 500 quilômetros de largura. Construído a quase 8.000 mil anos por Brandon Stark, o primeiro Rei no Norte, tinha por finalidade proteger as terras dos Sete Reinos da ameaça d’Os Outros, uma raça de seres malignos que viviam para além das terras conhecidas. Sua defesa foi posta a cargo da Guarda da Noite (Nigth’s Watch, no original), um grupo de irmãos juramentados que dedicaram a vida a lutar contra a ameaça vinda das regiões geladas do norte, das terras “para além do muro”. Aqui, a analogia com a realidade histórico-medieval européia é, também, bastante acentuada. Refiro-me à Muralha de Adriano, uma grande construção erguida próximo à fronteira da Escócia que tinha por finalidade defender a zona britânica do Império Romano das incursões dos pictos e escotos, habitantes do norte da ilha.

Entretanto, apesar do realismo que busca imprimir a seu mundo, Martin é um experto em criar situações mirabolantes que fazem sua história ser única entre tantas outras. Dos muitos fatores que tornam ASoIaF tão interessante, um dos mais peculiares diz respeito à inconstância do clima. Ao contrário de outros mundos conhecidos, Ponente está à mercê de estações erráticas que podem durar anos a fio, mas de forma imprevisível. No início da saga, o continente está no final de um verão que dura já uma década. Um largo verão ao que, segundo as crenças tradicionais, se seguirá um inverno tão longo e duro quanto. Contudo, Martin não deixa claro se esta regra é planetária ou se vale apenas para as regiões de Ponente e seus arredores. Segundo ele, a explicação para este estranho comportamento temporal virá ao final da série e será de natureza mágica, sem elemento de ficção científica.

Outro ponto de destaque da serie é a concepção das raças. Em Ponente, praticamente não há raças mágicas e, à época do início da saga, as que existiram são meramente mencionadas. À exceção dos poucas vezes citados Filhos dos Bosques, d’Os Outros e de uma esquecida raça de Gigantes habitantes do norte, todos as demais criaturas são assumidamente humanas, com todas as cores, estirpes, defeitos e qualidades inerentes à espécie. Porém, que fique claro, estes não são simples humanos e, sim, os melhores representantes da raça, homens fortes, altos e não corrompidos (fisicamente falando), como numa espécie de releitura genérica e bastante crível do Übermensch Nietzschiano.

E, em se falando de raças, há aquelas próprias da engenhosa mãe-natureza, criaturas ferozes que habitam as matas e montanhas do mundo. Lobos huargos, mamutes, uros e gatos das sombras, além dos irascíveis dragões. Sim, em ASoIaF há dragões. Ou havia, já que os três últimos morreram junto com seus senhores Targaryen. Ou, ao menos, é nisso que todos acreditam. E, em torno dessa raça é que gira o grande mistério de Ponente

Cersei Lannister

A História:
Em meados dos anos 90, quando a série A Bela e a Fera chegou ao fim e o desencanto para com os ares de Hollywood se tornou evidente, Martin voltou a escrever prosas longas e um de seus primeiros trabalhos foi um romance de ficção científica chamado Avalon. Em 91, enquanto tentava definir rumos para a história, a idéia de uma cena onde alguns jovens encontravam uma loba, cuja garganta havia sido cortada, lhe veio à mente. A loba, antes de morrer, havia dado a luz a alguns filhotes, que seriam adotados pelos jovens que os encontraram e cresceriam junto com eles. A partir deste ponto, Martin começou a tecer idéias e a desenvolvê-las, até criar um épico fantástico que dividiu em uma trilogia (sim, as muy famigeradas trilogias), cuja composição seriam os livros A Game of Thrones, A Dance with Dragons e The Winds of Winter.

Porém, ao terminar o primeiro livro, após um hiato de quase dois anos, Martin chegou à fatídica conclusão de que sua saga não caberia em apenas três volumes e, a partir daí, anunciou um quarto livro e, mais tarde um quinto, um sexto e um sétimo. As muitas crônicas de Ponente começavam a ganhar formas e os enormes calhamaços que saíam de seu computador pareciam não ser suficiente para contê-las todas.

É fato que muitas histórias permeiam as entrelinhas de ASoIaF, desde a guerra entre os Filhos dos Bosques e os Primeiros Homens, no início do mundo, até a trégua estabelecida entre eles e sua posterior luta contra os demônios chamados de Os Outros. Mas, para não fugirmos demais ao ponto central, fiquemos apenas com aquela que narra a ascensão, o declínio e as conseqüências da chegada dos reis Targaryen a Ponente.

Após cinco séculos de expansão, os poderosos senhores do Feudo Franco de Valyria, no leste, atravessaram o Grande Mar e alcançaram a longa costa de Ponente, utilizando a ilha da Rocha do Dragão como porto de comércio. Contudo, pouco mais de um século depois, Valyria foi destruída por um desastre conhecido como “O Destino”. Por esta época, a família que controlava a Rocha do Dragão, os Targaryen, começaram a preparar uma larga invasão e, sob as ordens de Aegon, o Conquistador, se lançaram contra Ponente. Embora suas forças fossem pequenas, eles tinham entre seus exércitos os três últimos dragões conhecidos, cuja força era mais que suficiente para subjugar todo o continente. Seis dos Sete Reinos foram rapidamente conquistados, mas Dorne, no sul, resistiu batalha após batalha, até que Aegon concordou em deixá-lo independente. Até então, o continente estava dividido em vários reinos independentes. Porém, depois d’A Conquista, as diferentes regiões, unidas sob o estandarte da Casa Targaryen, formaram os chamados Sete Reinos de Ponente.

Uma vez estabelecido seu poder, os reis Targaryen adotaram a crença na Fé dos Sete (religião que reverenciava as sete faces de Deus) para conquistar o coração do povo, embora ainda mantivesse certos costumes de sua antiga nação, como o casamento entre irmãos. Com isso, em pouco tempo os conquistadores quebraram todas as resistências à sua conquista e impuseram, sem a menor oposição, as suas leis. Os três últimos dragões morreram cerca de um século e meio após A Conquista, mas neste ínterim, as leis e o poder da Casa Targaryen já estavam bastantes arraigadas e não haviam sido contestadas até então.

Quinze anos antes do início de A Game of Thrones, uma guerra civil, chamada de A Rebelião de Robert, destronou Aerys II, o Rei Louco, pondo fim à longa dinastia da Casa Targaryen. Uma aliança formada pelas maiores Casas de Ponente e lideradas por Lord Robert Baratheon, Lord Eddard Stark e Lord Jon Arryn pôs fim aos exércitos e ao regime insano de Aerys e assassinou quase todos os membros de sua família, à exceção de sua esposa grávida — que posteriormente daria a luz a Daenerys Targaryen, a última descendente desta linhagem — e de seu filho Viserys, que fugiram de volta a Rocha do Dragão, ajudados por aqueles que ainda lhes eram fiéis.

Tyrion Lannister

Após derrotar o príncipe Rhaegar na Batalha do Tridente, Robert Baratheon assumiu a coroa e o Trono de Ferro, casou-se com Cersei, da poderosa Casa Lannister e tornou-se o primeiro rei de sua linhagem.
O que é interessante observar nesta sucessão de guerras pelo poder é que a conquista não se deu apenas pela espada. Intrigas e traições, jogos de poder e alianças são uma constante na escrita de Martin. Na verdade, se conhece muito mais da história pela força da palavra que pelo fio da espada. Outro ponto importante que Martin ressalta é a questão da fé. Para se dominar um povo, não é suficiente apenas subjugá-los, mas conquistá-los através de seu mais profundo sentimento, de seu mais arraigado desejo. Ponente é, assim, um mosaico de crenças e expressões religiosas. Como fizeram os reis Targaryen ao abraçar a fé no deus de sete rostos, outros, a seu modo e a seu tempo, também jogaram com a crença nos deuses, seja para forjar alianças ou para destruir aquelas que os ameaçavam.

Segunda parte do artigo.
Site do autor Rober Pinheiro.

3 comentários em “Rober Pinheiro: Um épico feito de gelo e fogo (I)”

  1. fantastik.com.br » Estatísticas comentou:

    [...] Distopia? Utopia? Passe lá para entender. Já Rober Pinheiro faz um apanhado geral sobre A song of ice and fire, o livro de George RR Martin que é desde já um clássico da fantasia do mesmo porte que Senhor [...]

  2. Eric Novello » Blog Archive » Papo na Estante 16: O que estou lendo? ago/09 comentou:

    [...] lista dos livros que comentamos. Vocês vão perceber que a Carol falou sem parar sobre a série do George RR Martin, um autor super em voga que, curiosamente, ainda não foi lançado no [...]

  3. Eric Novello » Blog Archive » A fantasia rompe barreiras comentou:

    [...] sobre a saga, o autor de fantasia Rober Pinheiro escreveu um artigo excelente para o Fantastik (parte 1 e parte 2). Com direito a foto do velhinho barbudo George RR [...]

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