Lembro a primeira vez que vi um vampiro na TV. Deveria ter uns cinco, seis anos. Ele entrou pela janela do quarto e seus olhos e as roupas que vestia eram fascinantes. Tomou a mocinha nos braços e a mordeu. Lembro que não senti medo, só uma sensação única de curiosidade. Minha mãe ao ser questionada me informou que aquilo era um vampiro. Era um morto-vivo que bebia sangue dos vivos. A resposta foi satisfatória, mas a imagem disse muito mais.
O vampiro é certamente uma das criaturas mais polêmicas que conhecemos. Penso hoje que, quando foi lançado Drácula, eles assumiram o controle. Publicado em 1897, Drácula recebeu uma acolhida significativa. Mas o importante é que o vampiro ganhou naquele momento uma face e poderes que jamais seriam esquecidos. Bram Stoker deu forma a um mito e desde então a imortalidade e a sede de sangue nunca mais foram as mesmas.
Dizer o nome Drácula é o mesmo que dizer vampiro. O que eles são, de onde vêm, como vivem é outra historia. O que bebem todo mundo já sabe.
Belos e repugnantes, bonzinhos e malvados, os vampiros tem sido uma das formas de terror mais recorrentes na literatura e no cinema. Eles vêm derramando rios de sangue e produzindo milhares de fãs.
No século vinte continuaram influenciando artistas de todas as áreas, músicos, escritores e cineastas. Um dos exemplos mais conhecidos é Anne Rice e sua obra rebuscada. Os livros conhecidos como Crônicas Vampirescas têm força e erotismo capazes de construir outro mundo. O sofrimento, a angustia, a crueldade e a homossexualidade que seus vampiros possuem deram a essa criatura traços humanizados e de fácil conexão. Não fosse a sede de sangue e a imortalidade, eles se enquadrariam muito bem na sociedade. Tem sua busca por Deus e querem respostas para seus dramas, chegam a ser comoventes. A filosofia e as questões existenciais os sacodem com a mesma forma que o desejo e o sangue. Anne Rice conseguiu dar nome a um vampiro que jamais será esquecido, Lestat. É um nome para se dizer com prazer e de preferência num sussurro. E afirmo: se não acredita em imortalidade você precisa conhecer um vampiro.
Eles estão cada vez mais fortes, belos e jovens e seduzindo todo aquele que ousar desafiar seu poder.
Matar é fácil, mas só um vampiro parece matar com estilo, um beijo vampiro é algo para se levar além do túmulo. Mas nem tudo é passado. Drácula usava uma capa bem ao estilo de sua época. Quem diria que teríamos atualmente vampiros de jeans e tênis e freqüentando o ginásio? Claro, histórias de vampiros não são coisa para crianças, ou são? É, a face do vampiro conseguiu mudar novamente e incorporar o espírito de nossa época.
Este vampiro com ar de anjo e sede de sangue vive numa cidade interiorana chamada Forks. Uma cidade chuvosa que possibilita a família de vampiros circular durante o dia e se misturar com os meros mortais. O fato é que em vez de ficarem entediados eles tentam ser produtivos. Um pratica medicina, os meninos estudam, investem na bolsa de valores, jogam bola e tentam ser o que jamais serão: normais e mortais. Tem coisa mais americana? Uma fantasia delicada e com tempo certo para começar e acabar, afinal eles não envelhecem.
Drácula era romeno e lutou pela igreja católica até se sentir traído por ela. Daí em diante só maldição e danação.
Fiquei me perguntando se não é cansativo para um vampiro observar nossos modos tão previsíveis. É interessante ver um vampiro com ares de adolescente freqüentando as aulas direitinho. Com tudo para ser desajustado, Cullen é digno de respeito e distância dentro de sua comunidade, reforçando a idéia da integração com que os jovens logo se identificam. Controle mental ou simplesmente a aura de poder que todo predador exerce sobre suas presas?
Há ainda muito para ser estudado e revisado nesse livro que mistura realidade e fantasia na mediada de sua autora acreditou ser certa e que funcionou maravilhosamente. Se tem uma coisa que não podemos contestar é o sucesso de Crepúsculo e a legião de fãs que ele conquistou. São convincentes e ricos. Ao meu ver, a cidade lhes pertence. Eles são os senhores e os habitantes são suas ovelhas.
Mas falta falar sobre uma ponta desse romance. Filha de pais divorciados, Bella tem poucas roupas e dirige uma picape velha. Ela tem tudo para ser a mocinha perfeita. É sincera e forte, apesar de não acreditar em si, mas também é atrapalhada e frágil, uma pessoa comum. Ela conquista a atenção de Edward mais pelo cheiro do que pelo físico. É essa a fórmula de um bom romance adolescente que também pode conquistar uma jovem mulher de trinta anos. E sabe por quê? Todos nós já fomos adolescentes e nos sentimos irremediavelmente apaixonadas por aquele menino da escola que não nos dava bola, vocês lembram?
Sem falar nos limites impostos por um amor proibido. Será que existe coisa mais saborosa que o amor proibido? Duvido. Um vampiro que não morde e que brilha. Junte a tudo isso um pouco de ação e violência controlada, um mocinho misterioso de pele pálida e você pode ter certeza, não tem príncipe num cavalo branco que consiga vencer o chame desse vampiro.
Bem, Edward não levou Bella para o seu caixão, como Jan Kmam fez com Kara Ramos, no meu romance Alma & Sangue, O despertar do Vampiro. Jan Kmam é um vampiro cheio de carisma e sorrisos enigmáticos, olhares devastadores e não dispensa um bom pescoço. Adora velocidade, tem uma moto, usa botas de quase três séculos! Ele é o favorito do rei. Além de ótimo espadachim sabe fazer magia, dança reggae, sabe tocar piano e gosta de poesia. Um tanto mandão e possessivo, mas dentro de seus belos olhos está um romântico incurável. Kara está acostumando-se a ele e ao mundo dos vampiros, mas na maioria das vezes pisa na bola e tem de enfrentar as conseqüências e elas são bem cruéis.
Na série Southern Vampires de Charlaine Harris, que foi adaptada para a TV no seriado True Blood, a temática não é diferente. Os vampiros são extremamente sensuais e se misturam com a sociedade causando espanto, admiração, amores e ódios. Sexo e drogas são uma constante, assim como sangue em garrafas.
O fato é que vampiros são imortais, enquanto os príncipes ficam velhos e chatos. Brincadeiras à parte, os vampiros têm algo de extremo em sua natureza, a capacidade de nos mostrar que somos frágeis e vivemos uma vida curta. Ela deve ser aproveitada ao máximo. Esta lição faz o coração bater mais forte e nos impulsionar para as aventuras. E já que o tempo é curto, nunca desperdice um bom livro!
Se você ainda não sabe o que é um vampiro, por favor, tente descobrir. Literatura, filmes e seriados não vão faltar, eu garanto. Mas lembre-se: mantenha a mente aberta. Eu tenho certeza, mesmo daqui a mil anos ainda vamos ouvir falar deles. É claro, nós já estaremos mortos, mas eles continuarão vivos na imaginação e nos sonhos dos que virão.