1. Qual a ideia por trás de O Vampiro da Mata Atlântica?
O VdMA nasceu de uma situação que imaginei, envolvendo um biólogo e um vampiro. Era para ter uma página e meia, mas saiu um conto de quinze páginas. Meus leitores-beta gostaram do conto, mas acharam insuficiente para explorar todo o potencial do enredo. Então o ubíquo Silvio Alexandre deu a palavra final: transforma em livro. Foi o que fiz.
Na época, estava fascinada pelo romance A Terrible Beauty, da canadense Nancy Baker, que usa elementos clássicos das histórias de vampiro (o personagem urbano que chega a uma mansão isolada, a floresta, os aldeões que sabem algo que ele não sabe) para criar uma fábula que se passa em local e época indeterminados, mas com um sabor inconfundível de Canadá. Depois de pensar bem, cheguei à conclusão de que daria para fazer algo parecido usando nossas próprias florestas, e achei que a região do Alto Ribeira, no sul de São Paulo, seria perfeita para isso.
Por outro lado, nessa época eu já estava trabalhando em O Vampiro antes de Drácula, a antologia crítica que publiquei junto com Humberto Moura Neto, e explorando as fontes do vampiro pré-literário.
Assim, resolvi juntar tudo: minha trama “biológica”, a brasileiríssima Mata Atlântica, a estrutura das história clássicas e o vampiro do folclore europeu. Acho que deu certo. Os leitores-beta adoraram, e já tem muita gente (em especial meus colegas biólogos, mas não só) ansiosa para ler.
2. É impressão minha ou ele tem influência dos seus trabalhos na área de ornitologia?
É isso mesmo. Esse livro é uma espécie de encruzilhada, uma convergência de dois caminhos que venho percorrendo há anos: o da literatura fantástica e um outro, muito mais longo e acidentado, de divulgação de ciência. Existem traços desse casamento improvável em praticamente todos os meus textos literários, tanto as crônicas quanto a ficção, mas nesse aí a coisa ficou escancarada.
O trabalho dos pesquisadores no meio do mato é fascinante, especialmente num país tropical e megadiverso como o Brasil, e é curioso que tão pouca gente se dê conta disso, em especial os próprios pesquisadores. Eu mesma só percebi como era rico esse filão depois de muitas perguntas e insistência por parte da Giulia Moon.
Em O Vampiro da Mata Atlântica, todo o cenário, os personagens e as situações vividas são calcados em minha experiência como ornitóloga. Menos a parte do vampiro. Eu acho.
3. O que os fãs de Relações de Sangue podem esperar: quebra ou continuidade?
Eu diria: quebra, pausa e continuidade.
Quebra: O VdMA se passa em um universo ficcional diferente de RdS. São histórias independentes, com linguagem diferente e abordagem diferente. Este livro novo é uma história de aventura e suspense, enquanto o anterior era um romance policial, com muita sedução.
Pausa: eu não abandonei o arco da história de RdS. Ainda não perdi a esperança de publicar a continuação, Amores Perigosos.
Continuidade: da mesma forma que RdS, o VdMA tem uma narração bem humorada, e os personagens são visivelmente brasileiros, não adaptações da ficção estrangeira. Tenho a impressão que é tão fácil o leitor identificar-se com Xavier Damasceno como foi com Maria Clara Baumgarten.
4. E depois de O Vampiro da Mata Atlântica?
Estou numa fase de muito pouca escrita ficcional. Atualmente trabalho em dois projetos: um livro escolar de biologia, para a SM Edições, e um guia das aves do Brasil, para a Wildlife Conservation Society e a Editora Horizonte Geográfico. Também estou trabalhando na tradução de alguns contos. Em breve deve sair, ainda, um conto inédito meu em uma antologia vampírica. Espero em breve conseguir publicar o tão aguardado Amores Perigosos, e tem mais um ou dois projetos antigos, de não-ficção, que quero retomar.
E se ainda sobrar tempo, tem um monte de livros de vampiros, lobisomens e outros seres sobrenaturais se empilhando em minha cabeça, na maioria inspirados em minhas viagens e aventuras!