Kaori: Perfume no nome, Fragrance na trilha.
Não é sempre que ouço música ao escrever. Há momentos que, francamente, não consigo me concentrar em nada, a não ser no texto no monitor. Nessas horas, uma fanfarra poderia tocar ao meu lado, que não me daria conta. Mas, noutras, uma música no player ajuda, e muito, a dar o ritmo certo às frases, a imaginar a ação, os personagens, o clima perfeito. Já escrevi contos ao som de um bom rock, já me inspirei nas canções dark dos anos 80 ou nos clássicos como Liszt e Saint-Saëns.
Neste último ano, enquanto escrevia o romance Kaori: perfume de vampira (Giz Editorial, 2009), ouvi muita música japonesa, tanto para narrar cenas da vampira Kaori no Japão feudal, quanto para acompanhar as aventuras do vampwatcher Samuel na agitada São Paulo. Assim, descobri algumas maravilhas, como o grupo de taikô Kodô, ou os elétricos Yoshida Brothers, que conseguem extrair um som incrível das singelas três cordas do shamisen. Dêem uma olhada e digam se não é uma trilha perfeita para cenas de ação:
Mas quero falar de uma música especial, que passou a fazer parte de Kaori como se tivesse sido feita para ele. Foi em outubro de 2008. Eu estava trabalhando numa cena-chave que, apesar de curta, era um dos trechos mais importantes do romance. O humano Samuel encontra-se frente a frente com a estranha e perigosa vampira Kaori. No quarto decadente de uma espelunca, o hotel Tayô, um iPod do último tipo, conectado a pequenas caixas de som, toca um videoclipe japonês. A música, na cena, é mais um dos inúmeros elementos que sublinham as emoções contraditórias de Samuel, que se sente atraído e, ao mesmo tempo, atemorizado pela proximidade da vampira. Para passar com propriedade esse clima, eu precisava definir qual era esse vídeo. Que canção era aquela.
Comecei a pesquisar, procurando no Youtube vídeos de bandas japonesas que me foram indicadas por amigos que curtem j-rock. Mas, horas de vídeos assistidos depois, eu me encontrava um tanto desapontada. Não sabia exatamente o que queria, mas tinha certeza que nenhum daqueles clipes multicoloridos era adequado para a cena. Lembrei-me então de uma banda de visual kei, Malice Mizer, que Roberto Melfra havia me mostrado há alguns anos, nos primeiros tempos do nosso namoro. Bem, quem sabe? Não custava nada tentar mais um pouco. Voltei ao Youtube e encontrei algumas canções do grupo. Ficou evidente que o som do Malice nada tinha a ver com a cena em questão. Mas rever os vídeos serviu para que eu percebesse com novos olhos o seu vocalista de nome esquisito: Gackt – que os japoneses, com o seu sotaque característico, pronunciavam Gackuto. Bem, Gackuto-san era diferente da maioria dos cantores japoneses de rock, pois possuía uma bela voz de barítono. E, mais do que isso, tinha boa aparência e muito sex appeal, de um tipo difícil de classificar, pois o seu rosto de traços finos, com a ajuda da maquiagem que usava sem nenhum pudor, transmitia um encanto ambíguo. Às vezes, de um herói romântico de contos góticos, noutras, de uma delicadeza feminina. Ora, ora… Uma voz sedutora de barítono num rosto andrógino. Um contraste muito estimulante.
Alguns cliques no Google me trouxeram uma notícia animadora: Gackt havia deixado Malice Mizer em 1999 e seguia fazendo sucesso em carreira solo. Gackuto-san era agora um j-rocker mais versátil, que cantava desde temas de videogames e seriados, até as músicas de seus megashows, que levavam multidões de fãs fanáticas aos estádios. Pudera, ele era um talento nato que escrevia as próprias letras e melodias, tocava inúmeros instrumentos, cantava, dançava, era modelo, ator e… O que mais? Era também uma figura excêntrica que fazia a alegria dos entrevistadores da TV, com as histórias sobre a casa sem janelas que mandou construir no subsolo de seu estúdio, a aversão à luz, a dieta espartana sem carboidratos que seguia com rigor em plena terra do arroz, o interessante hábito de andar nu pela casa, e sua fama de workholic que dorme em média três horas por noite, trabalhando nas outras vinte e uma.
Mas o que me levou a perceber que tinha encontrado a música certa para Kaori foi a descoberta de uma canção de Gackt de 2002: Fragrance. Bem, kaori, em japonês, significa perfume ou fragrância. Preciso dizer mais? E Fragrance era uma música linda e envolvente. A letra lunar e vampiresca, cantada pela voz cálida de Gackt, traduzia, na sua simplicidade, o abandono, o fascínio pelo desconhecido, que nos arrasta para a perdição.
Foi assim que a cena entre Kaori e Samuel surgiu, finalmente, sob o som de uma canção japonesa. Imaginem o olhar do humano de esguelha sobre a telinha do iPod, a música dolente, insinuante ao fundo. E uma bela vampira balançando suavemente as suas cadeiras na cadência da melodia, insidiosa como uma gata, aproximando-se, percorrendo sem pressa a curta distância que a separa do mortal.
Mais? Vocês saberão ao ler a página 163 de Kaori: perfume de vampira. Por enquanto, ouçam esta canção suave e sensual, na bela voz e figura de Gackt Camui. Não o vídeo que descrevo no livro, que é mais simples e intimista, mas uma apresentação ao vivo, com dançarinos e uma performance cheia de libido do cantor, que dizem, sempre se supera em shows. E divirtam-se!
Fragrance – Gackt Camui (Letra traduzida)
Estendo os meus dedos, tateando…
A memória, a desfazer-se ao vento,
Com fios tênues, puxo devagar
Para a voz de um coração inquieto,
Apuro o ouvido…
“Para que eu nasci, afinal?”
Ele se pergunta.
A lua continua a me fitar, indiferente
Ela ainda não vai me responder
Deixe-me ouvir essa voz
Deixe-me ver esse sonho
Mesmo se for um sono sem despertar,
Não há nada a temer
Ensine-me a verdade
Transmita-me essa culpa
Das lágrimas rubras que molham
Esse corpo dissimulado
Apenas… O amor vai se tornando maior
Nem o meu antigo nome
Não consigo me lembrar
Já não posso fazer mais nada
A lua continua em silêncio, indiferente
Deixando a chuva cair, sem cessar
I ain’t selfish
I ain’t selfish
I ain’t selfish
I’m myself…
Deixe-me ouvir essa voz
Deixe-me ver esse sonho
Mesmo se for um sono sem despertar,
Não há nada a temer
Ensine-me a verdade
Transmita-me essa culpa
Das lágrimas rubras que molham
Esse corpo dissimulado
December 26th, 2009 at 10:15 pm
[...] da cidade de São Paulo. Como parte da semana de divulgação do livro, a autora comenta qual Trilha Sonora inspirou a criação de Kaori (me apresentando Gackt Camui) e de quebra dá uma entrevista [...]
February 3rd, 2010 at 2:59 am
[...] da cidade de São Paulo. Como parte da semana de divulgação do livro, a autora comenta qual Trilha Sonora inspirou a criação de Kaori (me apresentando Gackt Camui) e de quebra dá uma entrevista [...]
February 4th, 2010 at 4:26 pm
[...] da cidade de São Paulo. Como parte da semana de divulgação do livro, a autora comenta qual Trilha Sonora inspirou a criação de Kaori (me apresentando Gackt Camui) e de quebra dá uma entrevista [...]