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	<title>fantastik.com.br</title>
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	<description>Literatura fantástica, ficção científica, fantasia, pulp, viagem no tempo, universo pós-apocalíptico, cyberpunk, magos medievais, magos urbanos, vampiros, senhor dos anéis, dragões, monstros marinhos, andróides, detetives sobrenaturais</description>
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		<title>Madrugadas</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 18:10:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fantastik</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[A madrugada estava fria, como sempre. Sempre faz frio em São Paulo.
Mesmo sendo uma cidade de um país tropical, aqui é sempre gelado antes da aurora. Mas ainda sim, não me poupo do prazer de caminhar pelas ruas desertas do centro. Ouço passos atrás de mim, e já não era sem tempo! Uma mulher andando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A madrugada estava fria, como sempre. Sempre faz frio em São Paulo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mesmo sendo uma cidade de um país tropical, aqui é sempre gelado antes da aurora. Mas ainda sim, não me poupo do prazer de caminhar pelas ruas desertas do centro. Ouço passos atrás de mim, e já não era sem tempo! Uma mulher andando sozinha, no meio da madrugada, pelas ruas de uma metrópole não passaria despercebida, claro. E claro, eu já contava com isso.<br />
Precisava mesmo me exercitar, a ferrugem produz ruídos terríveis nas articulações! De repente, senti um braço na cintura, uma mão na boca para abafar um possível grito. A abordagem clássica! <br />
Deixei que suas mãos me agarrassem, e fui sendo meio arrastada, meio carregada, para trás de umas árvores enormes que havia numa praça ali perto. Se alguém viu a cena, bom, sabe como é, cada um na sua&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Devidamente jogada ao chão, pude ver meu agressor: jovem, imundo, faminto, viciado. O cheiro de podridão e corrupção que emanava dele só aumentava minha expectativa. Deixei que rasgasse minha blusa, e meus seios saltaram pra fora por causa da violência, e me empinei mais um pouco, para ressaltar o volume das formas arredondadas, e mantive um olhar assustado, mesmo sentindo as ondas do prazer antecipado.<br />
Estava escuro e me senti grata, afinal eu estava ruborizada e não pálida, como a situação exigiria. Enquanto sua língua percorria as partes onde a pele estava nua, senti um arrepio intenso, um arrebatamento que só quem vive a situação sabe. Eu sabia que precisava me controlar. Sabia que o êxtase tem seu momento certo.</p>
<p style="text-align: justify;">Não adiantaria se eu me descontrolasse e me deixasse levar pelo prazer. Deixei que o rapaz me tocasse, me lambesse, me xingasse. Por baixo daquela decadência, eu sabia que havia luz. Ele, apesar da pouca idade, era surpreendentemente experiente, e sabia que, mesmo sendo um ataque violento, eu estava excitada.</p>
<p style="text-align: justify;">Não havia como esconder, a umidade brotava de mim como se fosse de uma nascente de águas perfumadas, a minha respiração arfante e a veia pulsando no pescoço, os mamilos endurecidos, tudo indicava que sim, eu estava gostando daquilo.</p>
<p style="text-align: justify;">O moço não se fez de rogado, e ali, no chão, rodeados de embalagens vazias de salgadinho e guimbas de cigarro, nos enroscamos um no outro enquanto ele me invadia com seu membro enorme. A cada estocada eu tirava mais dele, minhas unhas lanhavam suas costas, tirando crostas de sujeira e tiras de pele, e o sangue escorria e eu lambia os dedos.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto o pobre rapaz gozava, tudo o que havia nele era meu, afinal. Ignorei suas memórias, seus desejos de viciado e sua sede de alcoólatra. Suguei seu sêmen, seus testículos, seus rins.<br />
O coração eu arranquei, com as unhas mesmo. Foi fácil afastar as costelas&#8230; Só deixei os cabelos e as unhas, que são muito indigestos.</p>
<p style="text-align: justify;">O dia estava amanhecendo, e na praça, em meio a um pouco de lixo e umas roupas velhas e sujas, eu enterrei seus olhos. O meu povo nunca come os olhos. Dizem que é onde vive a alma, e não é de bom-tom comer a alma de alguém.</p>
<p style="text-align: justify;">Vesti minhas roupas, agora esfarrapadas, e fui pra casa tomar um banho, afinal, era quinta-feira, dia de muito trabalho no escritório.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://www.profanaeu.blogspot.com/" target="_blank">Roberta Nunes</a></strong> tem diversos contos publicados na Internet e participou da coletânea Paradigmas vol 1 e vol 4.</p>
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		<title>Linea Nigra</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 17:58:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fantastik</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Os olhos azuis dela brilharam quando anunciou:
              &#8211; Estou grávida, querido. Você vai ser papai.
              O primeiro pensamento dele foi um perplexo “como isso é possível?”. Ela era infértil: caros tratamentos médicos, dietas especiais e até mesmo simpatias fracassadas haviam comprovado a esterilidade total.
              &#8211; É um milagre &#8211; a futura mãe disse ao notar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os olhos azuis dela brilharam quando anunciou:<br />
              &#8211; Estou grávida, querido. Você vai ser papai.<br />
              O primeiro pensamento dele foi um perplexo “como isso é possível?”. Ela era infértil: caros tratamentos médicos, dietas especiais e até mesmo simpatias fracassadas haviam comprovado a esterilidade total.<br />
              &#8211; É um milagre &#8211; a futura mãe disse ao notar a surpresa no rosto dele. &#8211; Estou tão feliz.<br />
              Ele olhou com atenção o corpo da mulher &#8211; miúdo, pele imaculadamente alva, cabelos negros e lisos &#8211; que em breve assumiria um formato novo. Uma mudança que ele bem sabia não se resumiria ao ventre arredondado, seios pesados e pernas inchadas.<br />
              Sentiu as entranhas encolherem.<br />
              &#8211; Vou marcar uma consulta para começar o pré-natal o mais cedo possível – ela abraçou o marido, que tentou retribuir o afeto da melhor maneira possível; esperava que não percebesse como ele tremia, não só pelo choque da notícia, mas também de medo. <br />
              Medo pelo que teria que fazer em breve.<br />
              Pois aquela criança não poderia nascer.<br />
                                          <br />
###<br />
 <br />
              A notícia da gravidez se espalhou entre os colegas de trabalho dele; a esposa fizera questão que o maior número de pessoas soubesse do acontecimento.<br />
              &#8211; Mais uma cerveja para o grávido aqui – disse um deles, no happy hour da sexta-feira. Todos na mesa riram, menos o futuro pai. Outro colega prosseguiu:<br />
              &#8211; A vida nunca mais é a mesma depois do primeiro filho e não falo só das despesas que vão aumentar. É bom se acostumar com a ideia de que você será o responsável pela criança até ela completar os dezoito anos &#8211; cabeças balançaram em volta da mesa, concordando. -  Mas parece que você já tá abatido, deixa isso pra quando o bebê chegar e você trocar as fraldas fedorentas durante a madrugada.</p>
<p>              Novos risos. O primeiro confirmou:<br />
              &#8211; Criança dá um trabalho danado, mas o que importa mesmo é que tenha saúde.<br />
              O futuro pai permaneceu calado. O outro colega ficou sério, contemplando o que restava da cerveja no copo.<br />
              &#8211; É, boa saúde é o que interessa. Minha prima tem uma menina com paralisia cerebral. A coitadinha fez dez anos ontem, entrevada na cama. Muito triste &#8211; entornou a bebida em um gole, antes de continuar. -  Bom, mas vocês são novos,  não tem perigo da criança nascer com síndrome de Down ou algo parecido. <br />
              O “grávido” soltou um suspiro; seria um homem de sorte se o bebê nascesse com Down ou paralisia cerebral.<br />
              &#8211; O que importa mesmo é que o bebê não nasça feio como você! &#8211; completou o colega, rindo.<br />
 <br />
###<br />
 <br />
              E assim os dias tornaram-se semanas, as semanas viraram meses e o sexto mês chegou com a futura mãe pesando mais de quinze quilos além do recomendado pelo obstetra. A pele do rosto, antes tão branca, era maculada por manchas escuras e simétricas ao redor dos lábios e bochechas, como as pintas de algum animal exótico. Varizes espalhavam-se de um lado ao outro das pernas, enquanto estrias sulcavam caminhos em coxas, seios e ventre. Este era dividido ao meio por uma mancha estreita e comprida &#8211; conhecida pelos médicos como linea nigra &#8211; que se estendia do meio do torso até o púbis. <br />
              Os exames pedidos mostravam uma gravidez normal, ainda que o ultrassom não conseguisse diagnosticar o sexo devido à posição em que o feto se encontrava. O obstetra assegurou que não havia motivo para preocupação; a futura mamãe devia aproveitar cada momento da gravidez.</p>
<p>              Era o que ela fazia. Todos os dias despia-se e alisava com creme hidratante o ventre redondo, observando com curiosidade seu perfil no espelho do banheiro, uma letra B gigante refletindo-se na superfície.</p>
<p>              O estômago do marido se revirava ao ver aquela cena. Não só por presenciar a alteração diária naquele corpo, mas porque sabia que seu tempo esgotava-se; havia adiado por muito tempo a difícil decisão que deveria ter tomado tão logo ela lhe contara a novidade. <br />
              Mas existia um motivo para tal demora.<br />
              Ele amava a esposa.</p>
<p>              Amor era um conceito estranho na sua terra natal.  E mesmo quando chegou aqui, após fugir e assumir o lugar de um homem órfão, emulando um comportamento aceitável naquela sociedade nova, ele teve dificuldades em compreender o que era tal emoção.</p>
<p>              Até conhecer aquela mulher. Ela lhe mostrou o que era amor e ele acabou por esquecer seu passado turbulento em um lugar tão distante. Em uma noite quente de verão, ela lhe contou sobre o desejo de ser mãe. Sua reação foi um confuso franzir de cenho. Paternidade e maternidade também eram palavras estranhas no lugar de onde vinha; para ele, ser pai e mãe resumia-se ao macho copulando com a fêmea e esta parindo, meses depois, uma criatura que se tornaria uma máquina de matar. Macho e fêmea nunca mais veriam a prole pelo resto de suas vidas curtas.</p>
<p>              A confusão inicial deu lugar ao pavor quando descobriu o conceito de paternidade naquele verão. Não conseguia explicar para a esposa o perigo que era gerar um descendente seu, que cresceria e sairia da casa. <br />
              Um ser que herdaria características físicas e intelectuais dela.<br />
              E dele.</p>
<p>              Pois filhos nada mais eram que cópias de seus genitores, ele concluiu. Com todas as suas qualidades e defeitos.<br />
              Felizmente, a descoberta da infertilidade e sua continuidade, mesmo após tratamentos médicos, revelaram-se um bônus. <br />
              O problema, como ele agora descobriu, é que médicos também cometiam erros.<br />
              &#8211; O bebê chutou! &#8211; ela gritou, interrompendo os pensamentos dele. Ela aproximava-se com um sorriso fixo, após mais uma sessão de hidratação. Vestia apenas calcinha branca; os mamilos, agora marrom-escuros, eram como olhos a lhe encarar, enquanto o umbigo, no caminho da linea nigra, assemelhava-se a uma boca minúscula, desdentada e de lábios salientes.</p>
<p>              Foi quando ele viu a mancha que lhe dividia o torso ondular como uma serpente. Piscou com força para ter certeza do que acontecia e quando abriu as pálpebras, dezenas de outras linhas escuras, finas como veias, proliferavam-se a partir da linea nigra, parecendo as patas de uma centopéia. Em questão de segundos, estenderam-se pelo ventre e, retorcendo-se como tentáculos, desceram até a virilha.<br />
              Ele levantou o olhar e viu as aréolas dos mamilos aumentando de tamanho, avançando rapidamente sobre os seios brancos.<br />
              Algo viscoso agarrou-lhe a mão.<br />
              &#8211; Sente como nosso nenê chuta forte &#8211; a esposa disse, resquícios do creme hidratante nas palmas lambuzando a mão do marido. Com um safanão, ele afastou-se dela, inventou uma desculpa e saiu correndo dali, controlando-se para não vomitar.<br />
              Ela pareceu não se importar com o comportamento dele. Apenas continuou a acariciar o ventre, os cabelos escorridos cobrindo-lhe o rosto, entrevendo-se entre as madeixas negras os lábios retesados em um sorriso.<br />
 <br />
###<br />
 <br />
              O tempo se esgotava, ele concluiu enquanto caminhava no parque localizado a algumas quadras da casa. Ele era também o responsável pela concepção daquela criança, no final das contas; não podia fugir da sua responsabilidade de pai. Era preciso interromper a gravidez de alguma forma.              <br />
              Pensava em como faria isso quando seu celular tocou. O identificador de chamadas mostrava o número da casa.<br />
              Atendeu a ligação e um berro soou no seu ouvido, seguido por uma cacofonia estridente, logo substituída pelo tom monótono de que a ligação caíra.<br />
              Ele refez o trajeto para casa em menos de cinco minutos, quando o normal seria o dobro. Um odor repugnante -  mistura de sangue, fezes, urina -  o atingiu assim que cruzou o umbral da porta.</p>
<p>              A casa estava em silêncio. De onde estava, podia ver a esposa estendida no sofá, o rosto voltado para cima, olhos abertos como se verificasse o lustre. Seu braço estava a centímetros do telefone fora do gancho, enquanto suas pernas encontravam-se abertas uma posição inaceitável para uma moça de boa criação.<br />
              Era apenas o que ele podia distinguir. O resto daquele corpo miúdo era agora uma polpa brilhante de carne e ossos dilacerados. <br />
              Ele tentou não imaginar o desespero da esposa ao sentir garras curvas como foices abrirem caminho pelas suas vísceras e ver um crânio, coberto de pelos pontiagudos como espinhos, surgir entre suas pernas.<br />
              Com os olhos embaçados de lágrimas, notou uma trilha larga de sangue que começava no sofá e seguia até a cozinha. Cautelosamente, acompanhou o rastro viscoso cômodo adentro. A primeira coisa que percebeu foi a porta destroçada que levava ao quintal. A segunda era que a trilha dividia-se em duas.<br />
              Pelo visto, o ultrassom não soubera precisar apenas o sexo do feto.</p>
<p>              Um berro aflito soou lá fora. Tremendo, o pai correu até o muro que dividia a propriedade. De algum lugar mais distante no bairro veio outro grito desesperado e agudo; poderia ser de mulher ou criança.<br />
              Seu rosto se contorceu e ele desabou de joelhos na grama do quintal. Os tremores aumentaram, na mesma proporção da algazarra na vizinhança. Parecia que ele chorava violentamente, mas tal impressão desaparecia quando se escutava suas articulações estalando, enquanto placas ósseas afiadas rasgavam pele e roupas, fileiras de espinhos brotavam do couro cabeludo e dentes eram substituídos por presas enormes.<br />
              Janelas sendo despedaçadas, alarmes de casas ativados, veículos explodindo: o caos era total no bairro.<br />
              Mas tudo o que ele ouvia era uma voz repetindo-lhe que um pai era responsável por seus filhos.<br />
              Com esse pensamento atravessando seu cérebro, ele farejou o ar e correu sobre garras curvas atrás de sua nova prole.</p>
<p>Marcelo Augusto Galvão colaborou com os sites Hyperfan, Letra &amp; Vídeo, Terroristas da Conspiração, Estronho &amp; Esquésito, o projeto Fábrica dos Sonhos e a revista Scarium, além de ter contos premiados em concursos literários. Contato: magalvao@hotmail.com</p>
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		<title>O último anjo</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 17:46:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fantastik</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;E Deus disse: Eis que Adão se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal; agora, pois, expulsemo-lo do Paraíso, para que não suceda que ele estenda sua mão, e tome também a árvore da vida, e coma, e viva eternamente&#8221; 
(Gênesis 3-20)
A Primeira coisa que vocês precisam saber a meu respeito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#8220;E Deus disse: Eis que Adão se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal; agora, pois, expulsemo-lo do Paraíso, para que não suceda que ele estenda sua mão, e tome também a árvore da vida, e coma, e viva eternamente&#8221; <br />
(Gênesis 3-20)</p>
<p style="text-align: justify;">A Primeira coisa que vocês precisam saber a meu respeito é que eu já fui um anjo. Já fui – passado. Nada a ver com aqueles garotos gordinhos e com asas da arquitetura barroca. Ou mesmo os maravilhosos seres de luz descritos no Antigo Testamento. Os anjos são diferentes. Embora dotados de poderes extraordinários, esses mensageiros alados nem sempre carregam a Palavra de Deus. O meu caso é diferente. Eu era um deles, um anjo; e bastante poderoso. Eu tinha toda uma legião de Querubins sob meu controle. Tinha um lugar junto aos servos de Deus, um trono e uma moradia no Paraíso. Durante muito tempo eu acreditava estar fazendo a vontade de Deus, acreditava estar seguindo a Palavra. E então, eu descobri que a Palavra estava sendo corrompida, e usada para justificar a vontade de poucos. Então eu me rebelei. O que vou contar adiante é a minha história, a minha luta. Ela é dedicada à memória de todos aqueles que acreditaram, assim como eu, que poderiam resgatar o verdadeiro sentido da Palavra de Deus, que poderiam resgatar o simples valor da Justiça. Para todos esses. <br />
Que Deus os tenha.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes que eu inicie aqui esta humilde narrativa, permita, leitor, que eu me apresente. Na língua moderna, ou naquela que permite que a vós se faça a compreensão, o meu nome seria Ablon. Talvez não exatamente, em virtude das mudanças lingüísticas que a sua espécie costuma impor através dos séculos. </p>
<p>Confesso que é para mim motivo de grande curiosidade saber como esses escritos chegaram a vossas mãos, quais foram as circunstâncias e em que época. Há carros voadores? O homem já dominou a viagem intergalática? Trata-se de um futuro longínquo a quem estou escrevendo ou de um futuro próximo marcado pela economia de consumo e pela geração video-game? Provavelmente eu nunca encontrarei essas respostas, mas isso não me preocupa, afinal há inúmeras perguntas sem respostas mesmo para alguém como eu. Quanto mais se vive e quanto mais se encontra respostas, mais elas se multiplicam em mais perguntas, culminando em um abismo sem fim. A literatura moderna tem apelado para os romances fantásticos de forma tão espetacular nos últimos tempos que me camufla de maneira perfeita. Assim, esses escritos podem alterar sua inocente visão da realidade. Caso isso ocorra de maneira a causar algum dano, não se preocupe. Considere isso como uma obra de ficção. </p>
<p>Agora vamos falar um pouco de mim. Escrevo aqui no final do século XX, o que me concede dois milhões, não, dois milhões, sete mil e trezentos e quatro anos&#8230; eu posso estar errado em algumas décadas. A minha espécie foi criada para auxiliar o trabalho do Senhor. Fomos conhecidos por uma centena de nomes em diversas culturas, dentre eles: anjos, arcanjos, querubins, serafins e outros. Nada disso tem alguma importância. O fato é que nós realmente sabemos a verdade em relação a Deus e nem tudo que se diz Dele corresponde exatamente à verdade. A nossa casta foi fragmentada e hoje muitas entidades lutam entre si. </p>
<p>Durante muitos séculos nós estivemos sozinhos na terra. O Paraíso era habitado apenas por animais e o Espírito de Deus corria sobre as águas. Uma determinada espécie de animais evoluiu de forma a se igualar à nossa capacidade de raciocínio, e Deus resolveu conceder-lhe uma alma dando vida a Adão e Eva. Alguns conselheiros do Senhor, ou seja, alguns de nós, não admitiam o fato da concessão da alma divina a simples animais, porém decidiram não questioná-Lo, como forma de obediência. Acharam que seria mais interessante se usassem isso em seu favor. </p>
<p>Os que mais odiavam os homens constituíam a alta cúpula do conselho. Miguel, Gabriel, Rafael, Uriel e os grandes. E dentre eles estava Lúcifer. Os grandes começaram a promover um castigo em massa aos humanos, e a matar em nome de Deus.</p>
<p>Eu me lembro muito bem. O conselho era presidido por Miguel e ele tomava todas as decisões. O Senhor nunca se via presente, embora a sua força se fizesse sentir em todo lugar. Nenhum de nós jamais viu a face Dele. Miguel se achava o todo poderoso. Levava à tona suas vontades, justificando como a vontade Dele. A vontade Dele&#8230; Destruir vilas inteiras povoadas por mulheres e crianças inocentes? Não, essa não era a Sua vontade e sim a de quem impunha a Palavra.</p>
<p>Então, decididos a eliminar de vez os humanos, os arcanjos arquitetaram o dilúvio. A maioria de nós foi contra. Você tem idéia de quantas pessoas inocentes foram castigadas no dilúvio? E depois veio Sodoma, quando eclodiu a revolta no conselho. Muitos de nós já estávamos fartos daquelas atrocidades, mas Miguel era muito poderoso para ser questionado. Ele era o emissário do Senhor, mas Este nunca se pronunciava pessoalmente. Quando a Palavra era questionada, Rafael sempre levantava a questão: então quem criou todos nós? Por acaso ousa contestar o Senhor? E todos se calavam.</p>
<p>Quando a revolta eclodiu, muitos foram banidos, inclusive eu. Alguns, como Lúcifer, se aproveitaram da rebelião para conseguir poder e foram devidamente punidos e condenados ao abismo para sempre, na forma destorcida de demônios. Outros, como eu, foram expulsos do Paraíso e condenados a vagar pela terra.<br />
Eu me lembro daquele dia como se fosse hoje. O conselho havia se reunido. Eu e mais dezessete companheiros, que não se conformavam com a chacina promovida pelos arcanjos superiores, organizamos uma resistência secreta. Secreta porque sabíamos que qualquer questionamento às ordens Dele era passível de punição severa. Conseguimos apoio de alguns grandes, inclusive de Lúcifer. Dos duzentos e cinqüenta anjos, apenas dezoito participaram da resistência. Alguns apoiavam, outros repugnavam, mas a maioria permanecia indiferente. Eles tinham medo das conseqüências, eu não. Bando de covardes!</p>
<p style="text-align: justify;">Quando Miguel anunciou a destruição de Sodoma e Gomorra, tomamos a palavra em defesa dos homens, mas fomos reprimidos. O dilúvio tinha matado tantos que pensávamos ser o suficiente para eles, mas não. Enquanto eu me pronunciava, de maneira sutil, Lúcifer se levantou. A princípio me senti aliviado por ter um dos grandes do meu lado. Estava enganado. Em sua ânsia de poder, Lúcifer delatou todos os dezoito membros da resistência, traindo-nos. A sua palavra valia, de qualquer forma, muito mais do que a nossa. Em minha ira, parti para atacar o maldito, mas sem chances. Ele era muito mais poderoso. Os dezoito se levantaram. Lúcifer foi pego por trás e permaneceu fora de combate. Os outros grandes, não querendo sujar suas mãos com sangue, ordenaram que os anjos menores atacassem. Nós brandimos nossas espadas de fogo. </p>
<p>O que se deu a seguir não precisa e nem seria agradável se fosse relatado em detalhes. Houve uma batalha feroz no conselho. O Salão Celestial ficou imundo com o sangue divino. Esta foi a primeira, mas não a última vez que houve batalha no Paraíso. A maioria ficou gravemente ferida, inclusive eu. Alguns morreram, porém poucos. A nossa capacidade regenerativa é algo realmente formidável, devo admitir. Durante a batalha as nossas asas foram manchadas de sangue e nossas penas tornaram-se vermelhas para todo o sempre.<br />
Vendo que seus lacaios estavam perdendo, Miguel, evitando arriscar-se em combate direto, utilizou o seu poder para fazer com que nós caíssemos do Céu para a terra. Fomos assim expulsos do Paraíso e recebemos a designação de Renegados. Eu não gosto muito do termo, mas devo admitir que é aplicável. Fomos amaldiçoados. Condenados a vagar pelo mundo dos homens por toda a eternidade e impedidos de retornar ao Paraíso. Essa foi nossa punição.</p>
<p>A nossa chegada na terra se deu de forma rápida e dolorosa. Quando caímos, todos nós estávamos gravemente feridos e passamos alguns séculos escondidos para formular o que faríamos dali para frente. Permanecemos ocultos por todo este tempo, nos recuperando no único lugar onde não podíamos ser encontrados: as ruínas de Enoque, a Primeira Cidade. O lugar era incrivelmente desagradável para nós, pois havia uma sensação maligna muito forte ali: as almas daqueles que morreram em agonia, daqueles que foram vítimas da catástrofe provocada pelo dilúvio. Contudo, essa energia mística carregada de ódio e sofrimento era perfeita para esconder a nossa aura benevolente. Os séculos que passamos escondidos nos deram tempo para estudar um pouco da cultura dos primeiros mortais, que habitaram a cidade fundada por Caim. E mesmo sem contato com eles, Enoque era o lugar certo para nos prepararmos para a nossa entrada na sociedade humana. Aos poucos aprendemos, através das obras de arte das ruínas, a incorporar hábitos humanos. Percebemos que as nossas asas poderiam se aderir às costas formando uma massa única, uma camuflagem perfeita. Descobrimos também que, como se não bastasse a nossa maldição, Miguel tinha enviado uma grande quantidade de anjos menores em nosso encalço. Havia um prêmio pela nossa cabeça, pela cabeça dos Renegados.</p>
<p>No final desses séculos de exclusão, nós tomamos uma decisão: a fim de tornar a nossa captura e eventual morte mais difícil, nos separaríamos e nos espalharíamos pelo mundo. Esse foi o nosso grande erro. Não sei para onde os outros foram. Nunca mais os encontrei. Talvez pelo fato de que, no princípio, nós fugíamos de onde estávamos só de sentir a presença de um companheiro, a fim de não nos juntarmos de novo.</p>
<p>Logo quando deixei as ruínas da Primeira Cidade, em direção à Babilônia, soube que havia sucedido uma guerra no Céu. Lúcifer havia se utilizado do fato de ter nos entregado para conseguir posição e prestígio no reino dos anjos. Tomado pela sede de poder, cometeu um pecado capital: a inveja. Inveja dos que estavam acima dele, inveja de Deus. E não estava só, um terço dos anjos do Céu estava com ele. Essa foi a segunda e última vez, por enquanto, que o Salão Celestial foi coberto de sangue. Soube também que, em princípio, Lúcifer havia perdido a guerra e caído no Inferno, um lugar detestável e imundo. No início pensei sobre a possibilidade que nós, os Renegados, tivemos de ter caído lá. Hoje porém, eu sei que isto nunca aconteceria. Lúcifer caiu no Inferno porque era realmente mal, nós não. O pior de tudo: também soube que Lúcifer, agora um demônio, culpava a nós por sua queda. Afinal, nós fomos de fato o início de tudo. Essas últimas afirmações só vieram a se confirmar depois.</p>
<p style="text-align: justify;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Em uma certa noite de verão, a cidade de Babel estava sendo varrida por uma tempestade de areia como nunca havia sido vista. Os mensageiros chegavam do norte trazendo as notícias dos exércitos hititas se agrupando além das colinas. A cidade não estava preparada naquela noite para um ataque, desta forma viram a tempestade como uma espécie de milagre que o deus Marduk havia enviado para proteger o seu povo. Mas os ventos do norte traziam mais do que areia e notícias sobre ataques inimigos. Havia algo de diabólico naquele vento. Uma presença maligna de proporções avassaladoras. Aquele não era o dia da salvação da cidade, e sim o de sua destruição.<br />
Do topo da torre, não era possível enxergar a cidade abaixo, devido à nuvem de terra e areia que nem mesmo os gigantescos muros da cidade eram capazes de reter. Não se podia ver nada. Mas eu podia sentir que algo ou alguém se aproximava.</p>
<p>Uma nuvem de areia cobriu a minha vista por um instante e quando o vento amainou pude ver uma criatura de forma humana que se erguia sobre o ponto mais alto da torre. Estava empoleirado em um dos degraus logo acima de mim, como um gárgula gótico, com um par de asas que mais parecia as de um morcego. Os olhos penetrantes da criatura eram completamente negros e os seus dentes pontiagudos e estreitos. De resto parecia humano, a exceção ao seu forte cheiro de enxofre e sua presença incrivelmente má. Então uma rajada de vento rasgou o céu e a luz da lua iluminou a face da criatura. Havia algo de familiar. Sim, eu o conhecia. Eu me lembrava dele da época em que não era um renegado. O seu nome era Metatron e era um Querubim, assim como eu. </p>
<p>Metatron era um bom lutador. Nós lutamos durante quase toda a noite. Um pouco antes do amanhecer, já fadigados pelos ferimentos, consegui aplicar um golpe forte no demônio que foi arremessado contra o eixo principal da torre. O eixo começou a rachar. Metatron não agüentou a queda e morreu. A torre começava a desmoronar. Escapei voando e em pouco tempo a torre toda havia sido destruída, levando consigo a cidade mais bela de toda antigüidade. A tempestade de areia varreu as ruínas. A cidade que lá havia morreu. Seu povo se dispersou pelo mundo. Aquela batalha me custou muitas cicatrizes, que tenho até hoje, e foi a maior prova de que eu não era invulnerável e tampouco estava seguro. Com a morte daquele demônio, os outros saberiam onde eu estava. Tive que partir para longe. Começava a perceber que não devia ter me separado dos outros Renegados, mas ainda não estava certo disso. Quando percebi o erro, entretanto, já era tarde demais. Já havia me humanizado tanto, que a minha aura se confundia com a dos humanos. &#8220;Exibir&#8221; a aura divina tornou-se uma ação voluntária, e eu não queria correr riscos. Isso foi bom por um lado, pois me dava uma defesa natural contra aqueles que queriam me caçar.</p>
<p>Dali eu parti para a ilha de Creta, de onde chegavam notícias de uma próspera civilização além do mar Egeu. Lá, me estabeleci em Knossos por um bom tempo, e tive a oportunidade de presenciar a chegada da Idade do Bronze em seu centro mais importante. Cheguei até a arranjar um emprego de escriba das cartas secretas do Rei Minos, legendário governante do local. Creta foi o lugar que eu pude chamar de casa por mais tempo. Aos poucos, a civilização cretense entrou em decadência e uma série de guerras tentava impor a hegemonia dos estados do continente. Decidido a permanecer em Creta, tornei-me um dos maiores cientistas bélicos, ao lado dos outros generais. Um acontecimento marcante me fez deixar Creta: a morte de um de meus companheiros. Eu havia sentido que um dos Renegados tinha sido morto e eu podia ser o próximo. Desde então nunca mais permaneci durante tanto tempo no mesmo lugar. A morte do primeiro de meus companheiros me deixou abalado, e parti a fim de encontrar os outros. Inútil. Nunca mais os vi.</p>
<p>Depois de Knossos, alcancei o Egito pelo rio e durante a minha estadia fui visitado por dois anjos, ambos buscando a minha morte. Derrotei-os. Parti dali para Roma. Lá, senti a morte de mais dois Renegados e travei combate com mais duas criaturas infernais e quatro anjos. Nesse último combate quase fui morto e escapei da cidade antes que outros viessem atrás de mim. </p>
<p>Deixei Roma em direção ao Oriente, a China. Conheci hábitos novos e consegui me manter oculto por algum tempo. Depois da China estive em uma infinidade de outro lugares e perambulei de civilização em civilização até o fim da Antigüidade. Com a queda do Império Romano e o início da Idade das Trevas, as grandes cidades foram sucumbidas no Ocidente, o que me fez viver um bom tempo no campo. Travei inúmeras batalhas na Idade Média e outros Renegados foram mortos. Os dezoito estavam sumindo pouco a pouco. A Idade Média foi a época mais negra, a época em que mais fui caçado e mais Renegados morreram. Com tudo isso, entretanto, eu me tornava mais forte.</p>
<p>O fim da Idade Média trouxe de volta os grandes homens, os pensadores, o estilo clássico, as luzes. A população cresceu e as cidades prosperaram. Os centros urbanos tornaram-se ótimos para me ocultar. Comecei a me integrar na sociedade dos humanos, sem me prender a lugares específicos. &#8220;Deixai que a história siga seu curso&#8221;.</p>
<p>Os tempos modernos trouxeram de volta as trevas. As caçadas se acirraram e os outros Renegados foram morrendo um por um. Chegamos ao século XX com uma sociedade que se aproxima do fim. Guerras, doenças, fome, um quadro que se encaminha para o juízo final. Há uma hipótese que diz que todas as penas serão revistas com o Apocalipse e espero estar vivo até lá para que algo aconteça. Hoje, tenho quase certeza de que fui o único que sobrou dos dezoito Renegados. À medida que a busca  pela minha cabeça se torna mais acirrada, mais difícil torna-se a minha captura. Hoje, além de estar mais forte, me humanizei de forma a me confundir perfeitamente com os mortais. Permaneço oculto até hoje, esperando o julgamento final.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://filosofianerd.blogspot.com/" target="_blank">Eduardo Spohr</a></strong> é autor de A batalha do apocalipse e participante do <strong><a href="http://jovemnerd.ig.com.br/categoria/nerdcast/" target="_blank">nerdcast</a></strong>.</p>
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		<title>Os Zeladores</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 17:40:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fantastik</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[A cada noite de lua nova, O´Brien ocupa seu lugar na fila diante do Banco. Na escuridão, os portões de bronze maciço estão fechados, e assim irão ficar até o último instante: até que o último deles surja na esquina, olhando para todos os lados antes de cruzar a rua, e vença com passos curtos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A cada noite de lua nova, O´Brien ocupa seu lugar na fila diante do Banco. Na escuridão, os portões de bronze maciço estão fechados, e assim irão ficar até o último instante: até que o último deles surja na esquina, olhando para todos os lados antes de cruzar a rua, e vença com passos curtos e rápidos a distância que o separa do final da fila. Então, como se alguém os estivesse vigiando, uma sirene toca no interior do prédio, e os portões se abrem lentamente para lhes dar passagem.</p>
<p style="text-align: justify;">              O´Brien é um sujeitinho enfezado, com barba ruiva e a cara franzida de um jeito torto, dando a impressão de que está sempre piscando um olho. Como todos os companheiros, usa um chapéu de um verde desbotado, a mesma cor das roupas que, orgulha-se de dizer, são mais limpas e menos remendadas que as da maioria. Isso, porém, não lhe dá nenhuma vantagem sobre os demais, e O´Brien tem que esperar até que, um a um, todos aqueles que o precediam na fila passem pela sala do Gerente.</p>
<p style="text-align: justify;">              Já passa da meia-noite quando chega a sua vez. O Gerente está sentado à sua mesa e o olha com enfado, não por se tratar de O´Brien, mas por saber que terão de passar pelas formalidades de sempre. Anos e anos da mesma rotina traduzida em papel. Regras são regras, contudo, e os dois se esmeram em cumpri-las à risca, um pedindo e o outro mostrando cada licença e cada carimbo de vistoria. Por fim, depois de adverti-lo sobre seu desleixo – a marca de uma pegada sobre um formulário – o Gerente declara que tudo está em ordem, e O´Brien assina o livro de presença e recebe uma cópia da renovação de contrato.</p>
<p style="text-align: justify;">              Satisfeito e – por que não dizer? – aliviado, ele sai por uma porta dos fundos, onde os que já passaram pelo Gerente aguardam a hora de partir. Não há lugar para se sentarem, nenhuma comida ou bebida, nada a fazer a não ser enfrentar a longa espera. Alguns dentre eles, quase sempre os mais novos, trocam duas ou três palavras com os vizinhos, mas a conversa morre rápido por falta de assunto. Não há muito o que O´Brien e seus colegas tenham a dizer uns aos outros. De braços cruzados, mãos unidas atrás das costas ou metidas nos bolsos, eles esperam até que o último chegue à sala – e então, mais uma vez, soa a sirene, e dezenas de pequenas portas surgem no ar à frente de cada um. São todas de madeira, com gonzos de metal polido; seriam idênticas se cada qual não tivesse pregada uma placa de bronze contendo um nome e um destino. Aí está a de O´Brien, remetendo-o à velha turfeira nos limites do Condado de Leitrim. Ele empertiga o corpo, preparando-se para o regresso – e mal tem tempo de respirar antes que as portas se abram como uma só.</p>
<p style="text-align: justify;">              Uma sucção violenta puxa O´Brien através de sua porta. Ele rola pela turfeira aos trambolhões, mas, no instante seguinte, já está de pé a espanar a terra das roupas. O céu se tornou pálido, sinal de que não deve perder tempo, mas O´Brien passou por isso vezes demais para se preocupar. Com gestos precisos, ele mete a mão no solo, atravessando as camadas de turfa como se fossem de manteiga, e dele extrai um baú, que abre com uma chave em formato de trevo. Tira do bolso o documento com o selo renovado e o guarda lá dentro, sobre a pilha que cresce um pouco mais a cada lua. Então, depois de ter devolvido o baú ao seu lugar, dirige-se a um outro esconderijo, marcado por um círculo de pedras, do qual remove o pote envolto num velho xale.</p>
<p style="text-align: justify;">              É quase com reverência que O´Brien alisa o solo no centro do círculo. Devagarinho, ele pousa seu fardo, desfaz os nós do xale, que enfia no bolso do casaco enquanto olha para o céu. O sol está prestes a nascer, e assim também mais um dia de trabalho dos Zeladores. Ele pensa em seus companheiros, espalhados pelos quatro cantos da Irlanda a repetir os mesmos gestos, à espera do mesmo momento – e, embora lhe custe admiti-lo, sente orgulho ao lembrar que nenhum deles, desde o início dos tempos, jamais se descuidou de renovar as licenças. Pois os colegas de O´Brien, tal como ele mesmo, fazem questão de mostrar ao Banco que são dignos de confiança, que jamais renunciarão a seus postos, que guardarão com suas vidas, dia após dia, os potes de ouro que brilham no fim de cada arco-íris.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://www.estantemagica.blogspot.com/" target="_blank">Ana Lúcia Merege</a></strong> é autora de Os Contos de Fadas e O Caçador. Seu novo livro será publicado em 2010.</p>
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		<title>Rober Pinheiro: O mágico humano na obra de Murilo Rubião</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 17:35:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fantastik</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>

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		<description><![CDATA[Considerada como a grande precursora da chamada literatura fantástica (ou de fantasia) no Brasil, a obra de Murilo Rubião caracteriza-se por dois aspectos bastante significativos: o primeiro, o próprio surgimento insólito de sua escrita, carregada de elementos fantásticos e desengajada de qualquer movimento literário existente no Brasil até então, e, segundo, por sua maneira muito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Considerada como a grande precursora da chamada literatura fantástica (ou de fantasia) no Brasil, a obra de Murilo Rubião caracteriza-se por dois aspectos bastante significativos: o primeiro, o próprio surgimento insólito de sua escrita, carregada de elementos fantásticos e desengajada de qualquer movimento literário existente no Brasil até então, e, segundo, por sua maneira muito particular de explorar o chamado “realismo mágico”, já magistralmente trabalhado em outras esferas literárias por autores como Jorge Luis Borges, Júlio Cortazar, Juan José Arreola e Gabriel Garcia Márquez.</p>
<p style="text-align: justify;">Na literatura muriliana, especialmente em contos como “O Ex-mágico da Taberna Minhota”, “Teleco, o coelhinho” e “O Edifício”, o extraordinário está no cotidiano, nas pequenas coisas que tornam a vida cheia de significados, significados estes que, para o autor, tem um equilíbrio exato de matéria e textura entre o real e o mágico e que surgem como ponto de partida para a busca de outras significações. Há, aqui, a ausência brusca de rupturas na sequência narrativa ou de efeito de suspense a que o leitor comum está acostumado. Acontecimentos geralmente contrários e inconciliáveis se reconciliam tranquilamente durante o desenvolvimento do texto. É como se, pela despreocupação do autor em dar explicações plausíveis sobre este ou aquele “ato/causo fantástico”, se criasse um vínculo de aceitação com o leitor, tornando a história aceitável pelo que relata e não pelas “verdades corriqueiras da literatura comum” que deveria, a priori, apresentar.</p>
<p style="text-align: justify;">O leitor, assim, vai, ao longo da leitura, percebendo certo descompromisso com a causalidade, com a questão espaço/temporal da tradição romântica, com o idealismo do herói imaginado. É óbvio que acontecem prodígios durante a efabulação dos episódios que causariam alguma estranheza aos mais desavisados. Mas, diante de tal ficção, estabelece-se um pacto entre o escritor e o leitor, pois este, depois de dado momento, sempre irá depositar certa dose de credibilidade ao que aquele narra. É como se, na narrativa muriliana, houvesse uma extrapolação do condicionamento a que somos comumente expostos pela literatura, tal que até o mais extraordinário dos fatos narrados estivesse ao alcance pleno de nossas percepções comuns. É como se o leitor, ao adentrar este universo, tomasse para si, como parte inerente de si, estes questionamentos. Isto posto, o texto deixa a esfera do autor para enveredar pela esfera do leitor, criado novos parâmetros de interpretações de acordo com as expectativas de cada um, de indivíduos com histórias e trajetórias distintas, que irão desvendá-lo.</p>
<p style="text-align: justify;">Os fatos tornam-se, pois, uma espécie de sublevação de sentimentos corriqueiros, transpostos para o viés fantástico pela simples impossibilidade da representação direta. Entretanto, mesmo em face de tal artimanha, mesmo visto pelo viés do fantástico, a sensação de impotência, de fraqueza ante “forças contrárias” está presente ao longo da narrativa, como uma alavanca prendendo-o ao realismo pretensamente manobrável.</p>
<p style="text-align: justify;">No conto “O Ex-mágico da Taberna Minhota”, um dos aspectos temáticos centrais é exatamente esse, o do sentimento de impotência que experimenta um mágico desencantado por “não ter realizado todo um mundo mágico”, antes de ter seus poderes “drenados” pela burocracia. O sentimento de não-alcance do autor está contido na frustração do mágico, no corpo do próprio texto; é, em suma, o tema da narrativa. Este pode ser interpretado, então, como um discurso voltado também para o problema da sua própria condição, fazendo supor uma consciência lúcida quanto às dificuldades e, no limite, quanto à sua própria impotência para se realizar de forma completa.</p>
<p style="text-align: justify;">Porém, o transformador por excelência é o feiticeiro, ou ainda, na sua versão circense, o mágico, cujo dom o torna senhor do poder de metamorfosear o mundo. O mágico não se move, como o mago característico, por uma ânsia de posse e domínio da realidade; ele é, antes de tudo, um hábil manobrador da ilusão, o mago relegado ao palco de espetáculos, poderoso o bastante para se esquivar dos olhares atentos e encantar os homens. E, assim, sua arte se rodeia de ressonâncias fantásticas e fascinantes, fugindo do aspecto do real. Ele ilude os olhos e quebra a banalidade repetitiva da existência: do fundo da cartola, num passe de mágica, saltam coelhos e, como resultado, gera-se o espanto.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, através da metáfora, se nota uma transformação da forma narrativa às maquinações do fantástico, como se o texto fosse uma imagem refletida da própria condição humana (ou, antes, de sua impotência enquanto metamorfoseadora da realidade).</p>
<p style="text-align: justify;">E, o que se vê em “O Ex-mágico da Taberna Minhota”, é que mesmo este universo é falho; se a mágica é compulsiva, o insólito se transforma no banal. O fantástico, se vira regra, também cansa. Para o mágico, a contragosto, tirar coelhos do bolso sem parar é o tédio. Quem aparentemente tem poderes para modificar o mundo (seja o mágico ou, em última instância, o próprio autor, enquanto representante da condição do ser), só não tem o poder de sair dele, já que como não tem origem como os outros, tampouco tem um fim. Então, a vida resume-se num vaivém. A sua rotina mágica de antes é tão absurda quanto o “sentido de vida” da outra, simbolizada na petrificação da burocracia e na perda de sua própria condição. Movendo-se sempre no círculo fechado do extraordinário, sem conseguir criar de fato todo um mundo mágico, esse mágico desencantado perdeu exatamente a capacidade para sentir o que deveria criar: o espanto. E, no fim, perde o próprio sentido do mágico, ou seja, a desilusão com o mundo gerou a impotência que culminou com seu destino final, o esquecimento entre os gabinetes da secretaria do governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Outros contos do autor também demonstram que é frequente essa visão nítida das margens finais de criação e da própria existência, por isso mesmo, quando ele arrisca este salto, toca, com suas palavras, também certos aspectos limitativos daqueles que o leem.</p>
<p style="text-align: justify;">E, novamente, pode ser observada a questão da modificação, ou seja, a metamorfose. Na verdade, ela é, aqui, uma espécie de matriz temática onde se desenvolvem as diferentes transgressões características da literatura fantástica: as rupturas do princípio de causalidade, do tempo, do espaço, da dualidade entre sujeito e objeto, do próprio ser.</p>
<p style="text-align: justify;">No conto “Teleco, o coelhinho” temos a questão posta da inconstância eterna entre o querer (mágico) e o ser (real). Teleco, um metamorfoseador nato, passa os dias a mudar constantemente de forma sem, no entanto, dar-se por satisfeito com nenhuma delas. De coelho a leão, de canguru a cachorro, todas as novas roupagens se apresentam falhas e passíveis de evolução, até que, num dado momento (numa espécie de epifania às avessas) ele encontra num amor corriqueiro a projeção da forma perfeita, da matriz final que tanto buscava: a forma humana. Em Teresa, ele finalmente descobre sua razão derradeira, passando a denominar-se homem a partir de então. O interessante aqui é notar como o próprio nome da amada, Teresa, (cuja etimologia significa ceifeira e/ou caçadora) evoca a questão da finitude da mudança, da estagnação, pois é através dela, ou de seu pretenso amor, que Teleco finalmente deixará de metamorfosear-se, passando do múltiplo ao uno. Entretanto, este amor se apresenta, como ele descobrirá no final, como sintoma de negação e a mudança, aqui representada pela descontinuidade, como o mais falho de todos os atos. Ao final do conto, e depois de abdicar de toda a sua vida anterior, Teleco, finalmente, percebe a inversão de sentido de suas ações: a forma (perfeita) com a qual tanto sonhara (cuja maior característica é a imperfeição) findou por ser a ceifeira de todas as suas outras formas (perfeitas), rejeitadas por ele exatamente por sua — pretensa — imperfeição.</p>
<p style="text-align: justify;">E, por este aspecto, podemos evocar também a própria condição humana. Buscamos constantemente a evolução, a mudança, mas quando ela se apresenta diante de nós, tendemos a negá-la apaixonadamente, como se temêssemos nossa própria metamorfose. E, quando a última mudança pela qual passamos apresenta resultados inesperados ou pouco benquistos, ou quiçá não planejados, nos sentimos compelidos a encontrar uma explicação plausível que nos remeta imediatamente de volta ao campo do possível.</p>
<p style="text-align: justify;">Já no conto “O Edifício”, é bem perceptível a identificação metafórica entre o processo de estruturação da narrativa e a metamorfose. A construção infindável de um “absurdo arranha-céu”, a que sempre é possível acrescentar novos blocos e novos andares, pode ser entendida também como uma alegoria da própria construção ficcional do que se está lendo. O desenvolvimento do prédio (e, de certo modo, do conto e da percepção daquele que o está lendo) é, até certa altura, ameaçado pelos riscos de paralisação das obras, o que, implicitamente, representa ainda uma ameaça de detenção do que está sendo narrado, que acompanha a transformação do seu objeto ao mesmo tempo em que transforma o texto. Passado o momento do perigo para o prosseguimento indefinido da construção (ou seja, passado do 800º andar, o “limite aceitável e imposto”), ocorre uma fantástica e irônica rebelião dos meios contra os fins: o próprio engenheiro-construtor, vencido pelo tédio e pela ciência de sua impotência diante de tal obra, já não consegue deter o processo; os operários se recusam a interromper o trabalho e chegam mesmo a acelerá-lo, ao ouvir as belas imagens dos discursos feitos para desanimá-los. Há, portanto, a mudança de sentido, a metamorfose da dialética: do dito para o não feito.</p>
<p style="text-align: justify;">Se n’O Ex-mágico&#8230; há a mudança da condição do fazer e em Teleco a mudança do ser, aqui, a transformação se dá no campo semântico, das palavras que reverberam em ações contrárias as postuladas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, a própria construção da narrativa e da percepção do leitor se junta com o princípio de construção do edifício: o conto, onde também parece ecoar o mito do “aprendiz de feiticeiro”, permanece ironicamente aberto para um contar inacabável, enquanto o edifício ganhar altura. A invenção fantástica cria, assim, um movimento ininterrupto; em compensação, esse movimento é condição necessária do conto: se parassem as obras, se o edifício não se modificasse, o conto não teria razão de ser.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao entrar no universo destes contos, o primeiro impulso do leitor será se voltar para uma leitura alegórica, um desdobramento do texto num conteúdo subjacente, que o transformará em mensagem de significado diverso daquele dito no texto. Mas, este não deve ser o único dos caminhos a ser trilhado, ou não levará o leitor senão ao tédio, como o do mágico para quem o insólito virou rotina. A insistência nele eliminará precisamente o estímulo da viagem, a presença desafiadora do fantástico, um imaginário que não se deixa traduzir, exigindo, pela sua ambiguidade, a deslocação inquisitiva e renovada do olhar.</p>
<p style="text-align: justify;">É preciso, na prosa muriliana, ler literalmente, acatar as regras do jogo, fixando a atenção na própria construção do enredo. O fantástico, como tudo, se rotiniza. Mas, sem ele, não há como se reinventar. A arte do mágico, assim como a do coelho ou do engenheiro, parece ser a de esconjurar a esterilidade sem sentido do mundo real e, através de sua extrapolação, propiciar a germinação do fantástico. O discurso, em que o desejo parece ter livre passagem, vencidos os obstáculos pelas modificações fantásticas, realiza uma trajetória abstrata e desligada das obrigações da verossimilhança realista. Próximo do mito, a sua transformação constante instaura o reino insólito, da não-impotência, onde tudo pode acontecer, mesmo as coisas mais absurdas.</p>
<p style="text-align: justify;">[“O mágico humano na obra de Murilo Rubião”: PINHEIRO, Rober – Artigo de conclusão do módulo de Literatura Brasileira Contemporânea, do curso de Pós-Graduação em Literatura Contemporânea. Set/09].</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://roberpinheiro.blogspot.com/" target="_blank">Rober Pinheiro</a></strong> é autor de Lordes de Thargor &#8211; O Vale de Eldor, com contos publicados em coletâneas em papel e na internet.</p>
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		<title>Baby Beef Baby!</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 12:33:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fantastik</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Areia nos olhos. Alfinetes nos pulsos. Torniquete na lombar. Dor dos infernos! Não estivesse há mais de vinte horas consecutivas debugando um programa de testes para montar a apresentação aos Desenvolvedores – sem erros, pelamordedeus! – acreditaria que havia uma negra velha, lambedora do Papa Legba, fodendo um boneco com a sua cara lá na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Areia nos olhos. Alfinetes nos pulsos. Torniquete na lombar. Dor dos infernos! Não estivesse há mais de vinte horas consecutivas debugando um programa de testes para montar a apresentação aos Desenvolvedores – sem erros, pelamordedeus! – acreditaria que havia uma negra velha, lambedora do Papa Legba, fodendo um boneco com a sua cara lá na Africanísia.<br />
Espreguiçou como um gato. Rangeu como um tamborim. Gemeu longamente.<br />
– Ou descolo esse teste hoje ou me acabo – resmungou, arrancando o vídeo-óculos com a mão direita, arremessando-o sobre o tampo da mesa à sua frente. Sentia-se um lixo ao esfregar os olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">No Hipermundo, ao ser desconectado bruscamente, seu avatar entrou em pausa. Os braços pixelados desabaram ao lado do corpo. Seria apenas uma representação, um boneco, até a reconexão. Assim, parado, queixo colado ao peito, parecia com seu possuidor: imagem do desânimo.<br />
Caminhando com passos arrastados até a geladeira, G.ZuZ abriu a porta e apanhou uma Laurentina, ignorando o aviso no monitor do eletrodoméstico alertando que estaria morna.  Tocou o foda-se e tomou meia garrafa de uma vez. Quente. Deu um chute no aparelho, fechando a porta. Entornou o resto da cerveja, bochechando.<br />
Precisava de ajuda. Finalmente admitia. Não aceitava. Levou três meses desenvolvendo Shesh Nag/CLC 1.0 e agora não conseguia fazer nenhum teste que comprovasse seu funcionamento. O programa era um plugin para o Vishnu e, se fosse aprovado pelo Comitê de Inteligências Programadas, os Desenvolvedores, seria incorporado ao kernel do Hipermundo. E isso lhe renderia além de muitas moedas, sua bunda na macia cadeira virtual que havia vagado no CIP.<br />
Os hindus sempre foram os melhores em software de ponta, e os primeiros a fugirem para a Euronova quando abriram as vagas para engenharia do novo programa que substituiria a antiga rede mundial. O algoritmo do Vishnu era o pilar central do 3Murti. Eles o criaram. Brahma era responsável por gerir e recriar toda a codificação auto-sustentável do mundo virtual. Shiva era quem limpava o sistema, eliminando e destruindo as instruções obsoletas ou proibidas. Para conservar os códigos em funcionamento, Vishnu havia sido desenvolvido. Os três programas trabalhavam juntos e eram responsáveis pelas engrenagens do Hipermundo funcionarem de forma azeitada. Com o tempo foram desenvolvidos novos métodos e programas auxiliares. Remendos para cuidar das novas situações. E elas surgiam diariamente, no princípio de um mundo em pixel-formação.<br />
Shesh Nag/CLC 1.0 era um derivativo de Vishnu. Deveria servir especificamente para proteção de um tipo de avatar em particular que havia sido desenvolvido para a República. Mas, para provar sua eficácia, era necessário um teste. Melhor dizendo: um teste!</p>
<p style="text-align: justify;">Olhou para o arcaico desktop na mesa de canto. Praguejou. Então praguejou novamente. Teria que jogar sujo. Ter sangue nas mãos. Novamente. Não desejava começar dessa forma, mas já lhe avisaram que o poder corrompia. Ao conectar-se à sub-rede, submundo, abandonou a esperança de escapar do paradigma. Teclou, dando de ombros.</p>
<p style="text-align: justify;">pr hp sf-tstdrv nv hr2 NI-5 min /rm –tdr3 agrcct</p>
<p style="text-align: justify;">Suspirou e releu a mensagem antes de dar o enter: “preciso de ajuda para teste de estresse de software, novo, no Hipermundo. Necessito entregador de nível cinco. Ótima remuneração. O teste-drive é de risco três. Aceito agenciamento ou contato direto”. Depois de reler, pensou melhor, trocando o risco para cinco, antes de enviar o chamado na banda clandestina. Não queria se precipitar, fazer uma cagada. Outra. Se mentisse quanto ao risco da missão, poderia perder mais do que sua reputação. A coisa se espalharia. Todos que não deveriam saber saberiam. Já contratara serviço no submundo antes. Terceirizara um entregador. Só se enganara quanto ao seu contratante. O submundo não gosta de saber que está ajudando as agências do Conclave América-OldEuropean. In God we described! God curr the Queen! Sabia que, se mentisse deliberadamente, poderia perder mais do que uma orelha. Ou alguns dedos. E só lhe restavam oito agora.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">O ar estalou com a guinada brusca feita pelo Entregador ao desviar de uma tartaruga de trinta toneladas. Com destreza costurou, entre ela e um batedor de fliper que colidia com uma esfera de aço de três metros – e que era repelida a mais de 800 km/h. Uma baita porrada! E passou a meio metro dele. Seu coração disparou para 90 batimentos por minuto; informou uma tela, à sua esquerda, em sua visão periférica. Repuxou o canto da boca, comandando a tela a ir para o quinto dos infernos. Raciocinava o que seria aquela esfera no mundo real. Sabia que não era outro entregador. Entregadores não colidiam a 800 km/h. A não ser os muito jovens. Cabaços! Esses até faziam merda, mas no mínimo com o dobro dessa velocidade. Morriam dignamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma seta em tom magenta, quase fluorescente, piscou alguns quilômetros à frente, no canto da rodovia virtual. Franzindo o cenho, reduziu uma marcha na sua Speedy R1900 e tocou o freio até baixar a velocidade da motocicleta para perto dos 600 km/h. Remexeu a dentadura solta para um lado, e depois para o outro canto da boca. Nervosismo puro. Não solicitara alteração de rota. Alguém mandara o sinal para ele. Poderia ser coisa de gangue atrás de motocicletas – a esfera poderia ter sido um míssil? – ou poderia ser grana pintando. Estava quase na divisa com o antigo Chile. O país havia sido anexado havia duas semanas pela República Brasiliana. Muita coisa estava em mudança ali. Muitas moedas – e cabeças – estavam rolando.</p>
<p style="text-align: justify;">Atirou-se na curva indicada, derrapando de leve, seguindo a seta. Seu pescoço estalou as juntas, já quase desprovidas de cartilagem. Se não fosse pelo trampo, ao menos seria pela emoção. As rodas trepidaram antes dos amortecedores se ajustarem ao terreno. Praguejou com sua própria próstata. Enxergava a renderização de uma estrada de tijolos amarelos, o que indicava que cruzara seu programa de pilotagem com o de alguém. Sabia que no mundo real estava trafegando em uma via secundária da estrada. Perpendicular. Terra batida e cascalho. Outra seta piscou. Ao lado dela, Espantalho sorria um rabisco torto. Indicava que virasse à direita. Um quilômetro na direção indicada e Homem-de-lata estaria lá. Esse gesticulou para que diminuísse a velocidade e apontou uma ponte na transversal. Ela parecia tão estável quanto os dentes dele. Mas não caiu quando a cruzou.</p>
<p style="text-align: justify;">Desplugou-se do simulador. Seu visor do capacete ficou incolor e viu que estava em uma fazenda de soja. Encostou a motocicleta embaixo de uma placa de transgênicos. Havia mais de quarenta anos que não comia nada que tivesse soja. Qualquer tipo de grão. Apenas a boa e velha carne era confiável. Não planejava chegar aos cem anos. Não ia querer coisas estranhas crescendo dentro dele antes de bater os coturnos. Deixou a máquina inicializada para o caso de precisar sair rápido dali. Pelo mesmo motivo deixou as duas pistolas destravadas nos coldres. As mãos eram rápidas, mesmo com a artrite, mas não custava uma ajudazinha. Foi rangendo até o sujeito com o exoesqueleto caro, sentado na espreguiçadeira em frente ao casarão. Tão velho quanto ele. Talvez mais. A idade, a posição em que estava deitado e o caramanchão florido ao fundo fizeram com que o Entregador relaxasse um pouco. Pouco.<br />
– Leônidas, certo? – o velho perguntou, acenando com o dedo e tocando a ponta do chapéu panamá. O Entregador aquiesceu sem dizer nada. – Como anda?<br />
– Correndo – o Entregador respondeu, retirando o capacete enquanto sentava em uma cadeira de vime na frente do outro. – E doendo.<br />
– Muitos trabalhos?<br />
– Escassos. É a idade, preferem os mais jovens. São mais lentos, mas bem mais baratos.<br />
– Muitas moedas? – Ele ergueu a vasta sobrancelha branca.<br />
– É uma pergunta ou estamos negociando? – O Entregador também fez menção de erguer a sobrancelha, mas há anos as perdera.<br />
– Sempre negociando – o sorriso do velho era sincero. Ele apanhou um armtop de dentro do alforje de fibra em sua perna e o arremessou para o Entregador. – Última linha. Não havia computador melhor até ontem.<br />
Com perícia, Leônidas o girou nas mãos, arregaçou a manga da jaqueta, e acoplou o equipamento ao braço esquerdo, sobre a pele enrugada. Menos de um segundo até o aparelho rastrear seu Cartão de Identificação, baixar os dados do antigo palmtop em sua cintura, rastrear as preferências do seu capacete e identificar mais de trinta eletrodomésticos e aparelhos greentooth na região com banda livre para se conectar ao Hipermundo. A porra do visorzinho de plasma parecia sorrir para ele, convencido.<br />
– Qual é a pegada? – perguntou, cobrindo seu novo equipamento com a manga da jaqueta. Sim, era seu. Ninguém o tiraria dali. Que tentassem.<br />
– Um cliente precisando de um entregador NI-5 para um teste de programa no Hipermundo. Estou intermediando. Tem nível pra isso, velho?<br />
– NI-6, velho – a resposta foi cuspida. – Sabe disso pela minha retroficha. Sei que a leu.<br />
– Apenas entabulo uma conversa amigável – o intermediador falou, apanhando uma pequena barrica. Encheu dois copos com um líquido amarelado. Ofereceu um deles ao Entregador.<br />
– Qual tipo de software? – virou o copo em uma talagada.<br />
– Do pior. Apaga o avatar, limpa o Cartão, transforma a mente em estrume de cabra. Ou não. O risco é nível cinco. Barra pesada. Coisa pra macho, não pra florzinha. Conexão até o fim do serviço, sem saída no meio. Arregou, dançou!<br />
– Seis mil moedas – foi a resposta do Entregador, sem nenhuma inflexão distinta na voz – E mais uma dose dessa cachaça.<br />
O intermediador sorriu. Seu exoesqueleto deu um rangido e um suspiro hidráulico quando arremessou a barrica de bebida para o outro. O velho entregador a apanhou com uma das mãos, enquanto com a outra enxugava o suor que escorria pela calva.<br />
Contente, ele coçou o testículo por debaixo do exoesqueleto. A margem de lucro seria ótima, mesmo sem descontar o armtop.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">G.ZuZ já havia criado mais de trinta programas para simulação de testes em Shesh Nag. Usou o que havia de melhor em algorimetria cerebral, cruzando com bases de dados bélicas e simuladores de ação. Seu programa havia eliminado tudo com esforço sete. A escala ia do um ao cinqüenta. Se ele fosse um iniciante, acharia aquilo ótimo. Não era! E achava uma merda. Conseguira criar um ótimo programa, mas não sabia se era à prova de falhas.</p>
<p style="text-align: justify;">O dilema era exatamente igual ao dos diamantes. Como se cortavam diamantes no século passado? Com outro diamante ainda mais duro. Essa era a resposta. Precisava encontrar esse durão rápido. Se aparecesse na reunião dos Desenvolvedores sem apresentar um teste de verdade, eles o colocariam na geladeira. Não teria outra chance de provar a capacidade de seu código. Sabia que deveria haver centenas desenvolvendo o mesmo que ele, visando a vaga no CIP.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando a Africanísia – naquela época ainda um continente repleto de países, não a superpotência que é agora como um país unificado – conseguiu aplicar o Golpe do Ouro nos países do eixo-norte, afundando a economia americana e européia, o Brasil resolveu que também tinha seus próprios pauzinhos para esfregar. O Embargo da Carne foi chamado de the nail in the coffin economic, o famoso último prego do caixão. O Brasil possuía cerca de 200 milhões de cabeças de gado. Ao anexar a Argentina e a Bolívia ao seu território, após os dois países quase se destruírem em guerra, criou a República da União Brasiliana. Com a compra do México e do Uruguai, adquiriu os maiores rebanhos do eixo-sul, restando apenas o australiano, que aderiu ao embargo, e o indiano, que não era mercantil. Toda a carne vermelha parou de ser comercializada para os países do eixo-norte, o que obrigou os Estados Unidos da América e a Rússia – que apesar de serem os maiores produtores, também eram os maiores importadores de carne do globo – a selarem pactos com a China para adquirir seus rebanhos. Isso desencadeou na invasão da Índia pela China para tomada do seu gado. E depois da Coréia do Norte, Coréia do Sul, Japão&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Ao constituir toda sua força econômica sobre seu rebanho, a República da União Brasiliana se viu obrigada a tomar medidas para proteger sua maior riqueza. Foram criados vários edifícios com todo tipo de proteção biológica e física possível. Com o domínio das armas nucleares pela República, os ataques em grande escala estavam descartados, mas uma guerra franca ainda era plausível. Os animais passaram a ser confinados dentro deles, protegidos de qualquer tipo de ataque externo. O que se sucedeu em poucos meses foi o óbvio: o rebanho passou a morrer por causa do confinamento. Uma doença muito semelhante ao banzo, a mesma que afligia os navios negreiros. Em tempos modernos, foi encontrada uma solução moderna: o método Boi Feliz.</p>
<p style="text-align: justify;">Foram desenvolvidos chips de ID que passaram a ser implantados no cérebro dos animais assim que eles eram paridos. Os animais imediatamente se plugavam ao Hipermundo, com avatares bovinos, passando a viver em fazendas com grandes pastos verdes, grama alta, sem predadores e insetos, com tudo o que um boi poderia desejar para ser feliz. Baby beef, baby! Um bilhão e meio de cabeças. E contando.</p>
<p style="text-align: justify;">Um problema resolvido. Outro criado. Como o cérebro dos bois está ligado ao seu avatar no Hipermundo de forma irreversível, não pode ser desplugado. Um corpo sem mente é tão factível quanto baratas jogando poker. Se um boi morre no Hipermundo, seu corpo morre no mundo real. Um processo normal. Um boi tomba, um ponto acende em um monitor e, em poucos minutos, a carcaça já foi arrastada para uma câmara frigorífica. Em poucas horas teríamos mais uma jaqueta e churrasco de primeira. Um, cinco, cem bois morrendo não são um problema realmente. Mas, se meio bilhão de avatares fossem abatidos no Hipermundo de uma vez, seria um verdadeiro holocausto. Milhares de simulações foram rodadas pelos servidores da República e a conclusão sempre era catastrófica. Recentemente a ABIN soube que o Conclave América-OldEuropean também rodara essas mesmas simulações. Uma bandeira vermelha foi agitada.</p>
<p style="text-align: justify;">Para isso, G.ZuZ e vários outros engenheiros de software desembestaram na corrida independente para criar um sistema de defesa contra essa possibilidade. Shesh Nag/CLC 1.0 era a idéia dele. Tentou ser o mais refinado possível. Pensou até mesmo no que os primeiros Desenvolvedores fizeram, baseando seu plugin na mitologia hindu, onde o deus Vishnu é comumente representado flutuando sobre ondas. Ou nas costas de um deus menor, chamado Shesh Nag. Não queria apenas provar que era capaz de desenvolver a melhor linha de defesa para as fazendas da República da União Brasiliana, mas também comprovar que tinha a capacidade de se integrar ao corpo de decisão do CIP. Queria se tornar um dos Desenvolvedores.</p>
<p style="text-align: justify;">O bip soando ao fundo fez com que largasse seus devaneios. Com os dedos arrastou o cascalho para fora dos olhos. O velho desktop cintilava uma mensagem no cristal líquido: 20m M$. Foi um orgasmo para o programador. Estava disposto a pagar muito mais que 20 mil moedas. Venderia tudo que tinha se precisasse. Até sua alma, se já não estivesse comprometida há anos.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">O Entregador escolheu a BR-153 para início da missão. Era curta, com menos de cinco mil quilômetros de extensão, mas serviria. Depois cairia para outra, e outra e outra, até o mar, cruzando o país inteiro. Mas já havia pensado em tudo e calculou que o espaço seria mais que suficiente. O itinerário estava carregado em seu novo armtop. Ajeitou as luvas, colocou o capacete e sentou-se na Speedy R1900. Suas velhas juntas doíam de antecipação. Era difícil conseguir emoção ultimamente. Consultou os batimentos no visor do capacete. Oitentinha ainda. Um porre! Pensou no que vinha pela frente. Um risco cinco. Muito bom! Pegava menos de duas entregas por semana. Todas com risco dois ou três, no máximo.<br />
O capacete estalou ao acessar o Hipermundo. Não tinha o hábito de acessar aquela babaquice. Era coisa pra geeks. Mas agora estava lá. Seu Cartão o havia carregado em um ponto ermo do mundo virtual. Cortesia do empregador, que devia ser da – ou A – República, para liberar seu acesso dessa maneira. Então vamos brincar com um software governamental, pensou no momento em que o acesso se concluía. Já trabalhara muito para o governo. Pagando bem, que mal tem?</p>
<p style="text-align: justify;">Usava apenas o simulador para andar na estrada. Era uma espécie de versão reduzida do render de polígonos tridimensionais da grande rede. Mas os princípios eram os mesmos. Podia operar ali com facilidade. Pediu a checagem da área virtual à sua frente. No mundo real iria andar em linhas quase retas, atravessando o país, mas ali teria seis quarteirões por oito. Seriam quarenta e oito quadras para brincar de zigue-zague em uma desvairada rota aleatória. O mesmo programa anticolisão que sua motocicleta usaria no mundo real, ele utilizaria no virtual. Checou o programa e o percurso que traçara uma hora antes. Definira previamente as curvas e desvios que faria utilizando lances de uma rolha de vinho sobre um travesseiro. Queria ver se teriam um programa capaz de entender um padrão desses. No mundo real, solicitou a varredura de cada um dos parafusos de sua motocicleta. Sem falhas, pelamordedeus! Cerrou a dentadura superior contra a meia dúzia de dentes inferiores. Torceu o cabo do acelerador apenas para fazer barulho. Gostava dele. No Hipermundo seu avatar estava de pernas abertas, braços esticados, mas aparentemente flutuava sem nada debaixo. Não havia veículos no Hipermundo. Uma das regras primordiais por lá. Nada de atropelamentos, acidentes, ou avatares se movendo demais. Fiquem perto do centro, das publicidades. Era isso que o afastava daquele lugar. Sabia que, para sua moto ser aceita no Hipermundo, precisaria de uma permissão especial. Uma brecha no sistema. Ou algo assim. Aguardava.</p>
<p style="text-align: justify;">A renderização do terreno era uma cópia de terra ocre com seixos ocasionais. Bem feita até. Para todos os lados havia milhares de metros de cercas, rodeando fazendas onde bois pareciam pastar despreocupadamente. Se os avatares dos animais tivessem sido programados para isso, estariam sorrindo enquanto mascavam o chiclete de grama. Pareciam tão felizes quanto drogados chapados de Versax. Happiness rotten! Ele ia acabar com isso. Missão: matar mil bois sem ser interceptado. Pelo quê? Não lhe disseram.<br />
Apanhou as pistolas em sua cintura. Réplicas virtuais da sua arma real. Disparou quatorze tiros no chão. A versão real teria parado no décimo terceiro. Bom!</p>
<p style="text-align: justify;">Tomou um susto quando o ronco da Speedy R1900 surgiu de maneira ensurdecedora atrás de si. Entre as pernas, pixels espocaram em tons de cinza, depois no vermelho e no amarelo intensos de sua motocicleta. Sua espinha gelou quando a última conexão foi realizada. Agora não tinha mais volta. Só poderia se desplugar se terminasse a missão. Ou se morresse. Tudo ou nada.<br />
Pensou em Freud. O filho da puta dizia que o objetivo de toda vida é a morte. Ele já estava no lucro fazia tempo. Pretendia continuar assim por mais meia dúzia de anos.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Por dentro G.ZuZ tremia de emoção. Seu avatar, entretanto, permanecia frio como gelo. Ele até mesmo havia retirado um pouco do vermelho de sua renderização para deixá-lo mais azulado. A única coisa que entregava sua ansiedade era um ou outro ponto da malha de pixels que falhava, respondendo ao seu controle consciente para não fazer os naturais movimentos involuntários.<br />
– Podemos disparar a execução do teste? – Era D-Bst quem indagava diretamente ao programador. Ele era, dentre os Desenvolvedores, o que possuía o nível mais alto na hierarquia. Todos os demais o achavam um saco! – Instanciar sistemas – falou, com um indisfarçável prazer mórbido, antes que G.ZuZ tivesse tempo de responder.<br />
Se o programador queria pleitear realmente a cadeira vaga no comitê dos Desenvolvedores, teria que se acostumar em ter as respostas prontas antes que as perguntas fossem feitas.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Cinco? Dez? Quinze anos? O Entregador não sabia quanto tempo fazia que não sentia taquicardia. Seus batimentos não chegaram acima de 100 nem mesmo quando colidiu com um pequeno bimotor em pouso de emergência na Colômbia. Registrava 130 batimentos por minuto, quando acelerou sua motocicleta, fazendo pedriscos renderizados pipocarem para todos os lados.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixou que a máquina guinasse para a direita, seguindo até a quarta quadra, depois virou para a esquerda, deixando que o programa fizesse a manobra sem sua intervenção. Estava se ajustando à posição e ao peso da direção, avaliando a performance. Ótima! Sacou de uma Glock 21 com a mão esquerda e disparou. O primeiro boi tombou com um terceiro olho entre os originais.</p>
<p style="text-align: justify;">Por mais atento que fosse, o Entregador não pode perceber que, em meio à alta grama configurada, um par de olhos surgia – e o observava. Shesh Nag/CLC 1.0 estava instanciado. A diretriz base do software zelador era para que monitorasse a primeira ameaça de interrupção de uma rês, e na segunda, ativasse o ataque. Isso permitiria que avaliasse os padrões sequenciais e se aprimorasse cada vez mais a fim de que não houvesse uma terceira agressão no futuro.<br />
Ao realizar o segundo disparo, o Entregador freou bruscamente a motocicleta. Cerca de dois metros à sua frente uma sombra negra passou em uma velocidade assombrosa, bem na altura de seu pescoço. Não a identificou, mas subiu dos 200 para 400 km/h. E começou a disparar o mais rápido que podia.<br />
– Merda! – gritou quando o segundo bote passou um metro às suas costas.</p>
<p style="text-align: justify;">Aquele era o programa que estava sendo testado. Isso era claro. E iria persegui-lo até conseguir pegá-lo. Ou ele derrubar os mil bois. A Glock rugia para a esquerda e para a direita, sem parar. A Speedy R1900 para frente. Estava programada para realizar a sequência de manobras entre as quadras automaticamente, mas a velocidade era controlada pelo velho entregador. Inicialmente o risco negro passava a dois ou três metros dele. Agora dificilmente passava a mais de um.</p>
<p style="text-align: justify;">Trezentas cabeças. O Entregador olhava para o marcador periférico que contabilizava os abates. Para ele parecia terem sido mais de quinhentas. Desligou o marcador cardíaco. Não queria saber se ia ter um enfarto naquele momento. Apesar de o programa estar chegando cada vez mais perto, os velhos ossos do entregador também estavam se aquecendo.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">O avatar de um dos Desenvolvedores chegou a se erguer da cadeira giratória quando o capacete do Entregador foi resvalado por Shesh Nag. Para G.ZuZ aquilo foi um ótimo sinal.<br />
– Não se empolgue – D-Bst falou, sem desgrudar os olhos de outro monitor, onde lia a ficha do Entregador, tentando ocultar sua admiração. O sujeito que o programador havia escolhido era dos bons. Velha guarda da MAI-NI expressas. Ele conseguiu um bom teste para seu software. – Até agora foram quatrocentos bois mortos. E creio que ele chegará aos mil – Ficaram olhando a perseguição durante um bom tempo. O Entregador era muito bom. Muito bom, mesmo! – Sabe que poderia ter pegado um NI-5 para esse teste, não?<br />
– Sim – respondeu G.ZuZ no mesmo tom neutro – mas sou bom no que faço. Espere até que chegue em quinhentas cabeças.<br />
No canto do enorme monitor, o número 499 acabava de piscar.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Em um relance, com o canto dos olhos, o Entregador viu a sombra de Shesh Nag saltando cerca de dez metros à sua frente. Pinçou o freio no mesmo instante em que disparava e abatia o avatar de número 500. Por pouco não conseguiu se abaixar a tempo. Devido à redução de velocidade, a sombra passava três metros à sua frente, mas em um átimo se dividiu em duas, desferindo um ataque perpendicular que arrancou o retrovisor da motocicleta.<br />
– Putaquepariu! – O Entregador berrou, sentindo o programa deslocando pixels em sua jaqueta. – Essa merda é uma maldita cobra – Acelerou a motocicleta, dando-se conta finalmente contra o que estava lutando. – Duas agora.<br />
Shesh Nag propositalmente o atacava com botes laterais, de forma que suas escamas negras absorvessem a simulação de luz, permitindo que o Entregador visse apenas um borrão negro passando. De frente ele conseguiu identificar perfeitamente o par de olhos ofídicos, amarelados como pus. A língua bifurcada chegou a tocar nele de passagem. Marcava o alvo.</p>
<p style="text-align: justify;">O Entregador solicitou conexão com a central da MAI-NI. Pediu o download de um programa experimental de detecção de obstáculos. Havia visto a chamada para testes no comunicado do dia anterior. Deveria servir para ajudar os novatos, para não baterem em coisas que não deviam. Os mais velhos acharam aquilo uma tremenda bobagem, pois registrava além do que estava à sua frente, tudo o que vinha dos lados e de trás. Em seu trabalho, o que estava dos lados era considerado passado. O que vinha de trás nunca o alcançaria. Mas agora o programa parecia ser útil.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de mais dez disparos, percebeu um problema. Havia mais de vinte cobras no visor do programa.<br />
– Quem será o bostinha que escreveu um sistema multi-instância pra foder o velho aqui? – berrou em meio a uma crise de riso histérica, compreendendo que, a cada boi que abatia, o programa gerava uma cópia de si mesmo.<br />
Queria um charuto. E um uísque. Fumava como um incêndio e bebia como se quisesse apagá-lo. Sentiu o suor escorrer pelas suas costas no mundo real.<br />
– Suor? – gritou, entre um disparo e outro de sua Glock. – Isso não é coisa de macho. Você ainda não me fez suar, sua cobrinha de merda! Quando sair daqui eu vou ter um papinho bem de perto com minhas glândulas sebáceas. Vou colocá-las novamente no lugar delas.<br />
Então se calou. Já havia mais cobras do que bois ao seu redor. Por instinto atirou direto contra uma das réplicas de Shesh Nag que avançara de frente para ele. Uma explosão de pixels o rodeou quando cruzou pelos restos de código-fonte espargidos ao seu redor. Por um instante ficou surpreso ao descobrir que era possível destruir as cobras também. Sorriu. De verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Em frente à grande tela, G.ZuZ estava de pé, observando o desempenho de seu sistema. Assim como o Entregador, não havia previsto que Shesh Nag seria um alvo válido. Um detalhe estúpido, mas que deixara passar direto. Shesh Nag/CLC 2.0 iria prever isso. Ao todo tinha dez notas mentais para aprimorar a versão atual.</p>
<p style="text-align: justify;">À sua volta os Desenvolvedores também estavam compenetrados com a ação. Vários pareciam orgulhosos do programa, como se eles mesmos tivessem colocado seus dedos no código-fonte. Um deles comia pipocas com os pés sobre uma mesa.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Novecentas cabeças. Estava cada vez mais difícil achar os bois restantes. E Shesh Nag já não atacava mais o Entregador pela frente. Havia entendido que mesmo sem dentes, ele ainda mordia. Parecia mais preocupado em acertar as réplicas do programa do que os avatares dos bois. Guiava como um louco. Parecia achar que estava em casa. Começava a se sentir mais à vontade ali do que a própria divindade-cobra.</p>
<p style="text-align: justify;">Novecentas e sessenta cabeças. Restavam apenas quatro dezenas de bois por ali. Em um momento de distração, Shesh Nag abocanhou sua perna esquerda. Não a mordeu apenas. Arrancou-a na passagem. Era um avatar perneta agora. Nada de trocas de marcha. A Glock parecia uma metralhadora, de tanto que seu gatilho era puxado. O Entregador vocalizou o comando para que a Speedy R1900 travasse a aceleração para o máximo – o 1900 em seu modelo não era à toa – um milésimo antes de seu avatar ter o braço direito decepado.<br />
“Será que essa porra está comendo meus pedaços?” &#8211; o velho pensou, lutando para se manter sobre a máquina, sem uma perna e um dos braços, a quase 1.900 km/h.<br />
Em seu visor, dois alertas piscavam. Os números 990 e 100 piscavam em vermelho. O primeiro indicando o gado abatido; o segundo o que lhe restava de rodovia antes do grande e eterno nada.<br />
– Faltam dez projetos de hambúrguer – gritou, sabendo que alguém se divertiria assistindo aquilo mais tarde. – Esses pedaços meus que ficaram por aí&#8230; peguem e enfiem no rabo. É a única forma que vão ter de me manipular agora, até a hora que jogarem meu cadáver em um daqueles malditos fornos de cremação. A idéia me agrada. Nada de falsas cerimônias. Só um arremesso à fornalha. Sem fumaça por causa das merdas de filtros nas chaminés. Mas o cheiro vocês vão sentir, desgraçados!</p>
<p style="text-align: justify;">996 e 54. Ele atropelou uma das cópias de Shesh Nag. Gostou do efeito. <br />
998 e 42. Conseguiu dar um chute em outra cobra. Ela não pareceu se importar, mas ele adorou a sensação. Tinha certeza que chutara o cu da cobra.<br />
999 e 25. Faltava um boi apenas. Mas o Entregador sabia que Shesh Nag/CLC 1.0 estava apenas brincando com ele. O programa era esperto. Quem estava por detrás dele era esperto. Havia montado uma bela demonstração do seu programa ali. Ah, sim. Muito boa mesmo. Leônidas tinha certeza de que havia alguém, além dele próprio, se divertindo naquele instante. Como consolo, pensou que pelo menos ele estava curtindo de verdade a ação. Coisa rara naqueles tempos.<br />
999 e 1.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos Desenvolvedores chegou a dar um gritinho afeminado quando as mais de trinta replicações de Shesh Nag saltaram em círculo sobre o Entregador. A última bala que ele havia disparado estava em perfeita rota de colisão com o centro da cabeça do último dos mil bois. Uma das cópias a interceptou no ar, poucos centímetros antes de encerrar a missão do velho. Aquele boi continuaria pastando feliz.<br />
Nenhum deles soube o que aconteceu com o corpo do Entregador em seu último quilômetro de estrada física. Sua rota terminava em um píer.<br />
O quadro de Desenvolvedores voltou a se completar. E a soberania da República Brasiliana – depois de alguns ajustes em Shesh Nag para uma versão 2.0 –, ao menos no que dizia respeito a seu gado, estaria garantida.<br />
Esse era o bom e velho baby beef, baby!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://tarjaeditorial.com.br/tarja/" target="_blank">Richard Diegues</a></strong> é autor de Sob a luz do abajur, co-organizador e autor da coletânea Necrópole e editor da editora Tarja, com vários contos publicados em papel e na Internet.</p>
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		<title>Interface com o vampiro</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 12:25:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fantastik</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sangue e silício
No mundinho dos leitores brasileiros de literatura fantástica em geral, e de ficção científica no particular, certos livros escritos por seus compatriotas carregam um status mitológico semelhante ao do misterioso Necronomicon. Alguns privilegiados juram que já os leram, citam trechos cifrados em conversas ou em trocas de e-mails e até deixam escapar detalhes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Sangue e silício</p>
<p style="text-align: justify;">No mundinho dos leitores brasileiros de literatura fantástica em geral, e de ficção científica no particular, certos livros escritos por seus compatriotas carregam um status mitológico semelhante ao do misterioso Necronomicon. Alguns privilegiados juram que já os leram, citam trechos cifrados em conversas ou em trocas de e-mails e até deixam escapar detalhes da trama. Só que não emprestam, nem dizem como seus interlocutores poderiam adquirir algum exemplar, mesmo que seja de terceira ou quarta mão, rasurado, sem capa, com manchas de café espalhadas pelas páginas. Com isso, o mito em torno do objeto de culto cresce e divide o mundo entre os que, mesmo sem provas, crêem em sua existência e aqueles que, meio desdenhosamente, classificam tudo de delírio coletivo ou de teoria conspiratória. Pelo menos, agora, desde junho de 2007, uma dessas lendas urbanas passou a ter sua existência comprovada e se tornou acessível a todos os interessados &#8211; sejam crentes ou céticos -, graças à intervenção tecnológica do site Overmundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Interface com o vampiro e outras histórias havia sido publicado e comercializado, em formato eletrônico, pelo Writers, um projeto colaborativo para a produção de obras literárias. O problema é que, logo após o seu lançamento, no ano 2000, a editora virtual fechou, prejudicando tanto a divulgação quanto a disseminação daquele título. Somente um seleto grupo de pessoas ligadas ao meio da FC teve acesso ao e-book na época, o que lhe emprestou a mesma aura de inatingível de alguns dos livros clássicos desse gênero lançados no país em meados do século passado. O mistério só acabou porque seu autor, após ter recuperado a totalidade dos direitos autorais da obra, resolveu torná-la disponível na íntegra no Overmundo. O mérito pela iniciativa, portanto, cabe ao escritor e poeta e tradutor e dramaturgo e ator e jornalista e teórico professor e blogueiro Fábio Fernandes.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro é um apanhado de histórias curtas escritas entre 1989 e o ano da primeira publicação, ao todo são 11 jogadores, tal e qual nas melhores seleções. Apesar do longo tempo de produção entre um e outro desses textos, o leitor tem mais a ganhar se optar por acompanhá-los na mesma ordem com que foram dispostos nas páginas virtuais ao invés de praticar uma leitura aleatória. Interface com o vampiro tem algo em comum com discos conceituais, a exemplo do aniversariante Sergeant Pepper: a justaposição de suas faixas &#8211; ou, no caso, capítulos &#8211; empresta sentidos novos à fruição do conjunto. Em alguns casos de maneira explícita, em outros, insinuada, a ordem com que o autor organizou as peças de sua obra sugere relações entre as diversas histórias, fortalecendo o livro como um todo, mais que a simples soma randômica de suas partes. Outro ponto em comum com o famoso álbum dos Beatles, é o gosto por harmonizar cultura erudita e biscoito fino para as massas, terreno pantanoso que costuma engolir muitos de seus exploradores.</p>
<p style="text-align: justify;">Já que a ordem escolhida para a apresentação foi aqui elogiada, não sejamos contraditórios; façamos alguns comentários a respeito dos contos na mesma sequência com que eles entram em campo.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;O artista da carne (uma párabola)&#8221; &#8211; Interface com o vampiro começa com a história de um&#8230; vampiro. Daqueles clássicos, com caninos proeminentes e gosto por sangue. Mas estamos no século XXII, a existência desses seres é reconhecida e até tolerada. O protagonista, sem nome, por exemplo, só se alimenta em bancos de sangue autorizados. Cansado da solidão de uma vida que se estendeu por mais de 200 anos, ele faz uma encomenda ao personagem que dá título ao texto: quer que o Artista da carne providencie o clone de uma mulher que conheceu no passado, antes da opção pelo vampirismo. Narrativa econômica e minimalista ao extremo.</p>
<p style="text-align: justify;">Trecho: &#8220;Os meses passam, e tudo continuou perfeito. O vampiro desconfiou: a experiência lhe ensinara que nada continuava perfeito&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Em camadas&#8221; &#8211; Existe um texto que é praticamente unanimidade entre os críticos quando perguntados a respeito do que existe de melhor em termos de ficção científica no Brasil. Com justiça, o escolhido é &#8220;A escuridão&#8221;, noveleta escrita em 1963 pelo poeta e decano da FC nacional André Carneiro. Trata de um mundo em que todas as fontes de luz &#8211; do sol ao fogo, das lâmpadas às estrelas &#8211; vão lentamente se extinguindo, deixando a humanidade, simbolizada por um homem solitário chamado Wladas, totalmente entregue às trevas. O segundo conto da coletânea de Fernandes guarda semelhanças e qualidades que permitem a comparação com o clássico do gênero nacional. O protagonista aqui recebeu o nome de Ivan, aparentemente em homenagem a outro escritor brasileiro de ficção científica Ivan Carlos Regina (um paulista cujos textos também podem ser lidos em alguns sites), a quem a história é dedicada, ao lado do americano Philip K. Dick (autor que já foi traduzido no Brasil por Fernandes, exemplo mais recente, o livro Valis). Aos poucos, Ivan percebe uma série de estranhos fenômenos: primeiro são estações de rádio que aparentemente começam a sofrer interferências, como se as frequências estivessem sobrepostas, e em seguida, fitas de vídeo e de aúdio também dão sinais do mesmo tipo de problema. Em um crescendo rápido, as falas e os idiomas das pessoas, textos de livros, o sabor dos alimentos, os sonhos, as imagens, as impressões táteis, tudo enfim, vira um absurdo sinestésico, se misturando em um amálgama de realidades. O efeito do conto é pertubador. Apesar do ritmo e andamento serem perfeitos, faz o leitor imaginar o que aconteceria se o autor o trabalhasse na forma de um romance à parte.</p>
<p style="text-align: justify;">Trecho: &#8220;É como se tudo no universo existisse em camadas, e agora elas estão se interpondo umas no meio das outras, invadindo os espaços alheios, acelerando a entropia, antecipando um novo Big Bang&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;A conta, por favor (ou Salvador almoça no Antiquarius)&#8221; &#8211; Basicamente, uma piada corriqueira ganha ares de conto fantástico. Escrito com estilo, o texto narra, em primeira pessoa, a refeição que um homem de tapa-olho faz em um restaurante caríssimo. O conto é dedicado a outro escritor brasileiro, Victor Giudice (1934-1997).</p>
<p style="text-align: justify;">Trecho: &#8220;Os mais endinheirados sempre trazem um enfermeiro a tiracolo para servir a comida na boca. Pelo menos foi o que vi há um ano, da primeira vez em que vim. Este é o meu segundo jantar aqui. E provavelmente o último. É tudo muito caro hoje em dia. Por isso saboreio o quanto posso&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Falange vermelha&#8221; &#8211; Este é um caso em que a justaposição dos contos provoca uma sensação de que tudo pode fazer parte de um contexto mais amplo. Lido isoladamente, o quarto texto de Interface com o vampiro e outras histórias, bastante curto, aparentemente não faz parte de nenhum gênero da literatura fantástica. Parece mais um pequeno tratado naturalista sobre um homem que teve um dedo decepado (ou ainda, um homem que decepou o próprio dedo). Mas quando lido em conjunto com aquele que o antecede, o efeito é de algo bem maior.</p>
<p style="text-align: justify;">Trecho: &#8220;No instante do corte, é como quando você corta uma fatia de queijo, só que o queijo é você. Você sente a faca deslizar pela carne, e é tão palpável essa sensação que a impressão é de que você também sente os nervos sendo cortados. Mas é só impressão: você só conseguiria sentir um corte a esse ponto se a faca estivesse muito cega. Porque se estiver bem afiada você não sente quase nada&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;M.U.A.&#8221; &#8211; Início dos anos 80, Ramón e Renata são dois jovens que estão prestes a se casar no Rio de Janeiro quando o rapaz simplemente desaparece. Ele só volta a dar sinal de vida seis anos depois, reaparecendo de súbito na frente de sua ex-noiva para lhe contar uma história absurda. Com uma engenhosa incursão pelas Leis de Newton (as letras do título são a sigla de movimento uniformemente acelerado) usadas para explicar fenômenos da quarta dimensão, Fábio Fernandes criou uma bela história de personagens palpáveis envolvidos em uma situação surreal. Digno dos melhores momentos de um Além da Imaginação, até pela reviravolta do final.</p>
<p style="text-align: justify;">Trecho: &#8220;Isso começou a acontecer uns seis meses antes do dia do casamento. Eu comecei a ter brancos estranhos. Atravessava uma rua de manhã, e chegava do outro lado à tarde. Entrava na cozinha à noite e voltava para a sala ao meio-dia&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Se um viajante a bordo de um disco&#8230;&#8221; &#8211; Outro exemplo de texto curto que parece ter tido origem em uma piada ampliada. Exercício de estilo em narrativa de segunda pessoa sobre uma vítima de rapto espacial. O que os alienígenas poderiam querer com uma cobaia quase cega de tão míope? A dedicatória, desta vez, foi para dois autores internacionais: Ítalo Calvino, nascido em Cuba mas considerado um dos maiores escritores italianos (de quem Fernandes tomou emprestado o título do conto), e H. G. Wells, o inglês que é um dos fundadores da moderna FC.</p>
<p style="text-align: justify;">Trecho: &#8220;O medo que você esperava sentir não é tão grande. Tantos filmes de ficção científica tinham que servir para alguma coisa, afinal&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Declínio e queda&#8221; &#8211; Sucessão aparentemente interminável de desgraças na vida de Guilherme, por certo o mais azarado jornalista carioca de todos os tempos. Entre um ônibus e outro, ele tem que enfrentar funcionários burocratas e grevistas, sofrer com múltiplos assaltos e arrastões, levar tiros, facadas e pancadas, aguentar chuva, fome e dor. Crueldade autoral na última potência.</p>
<p style="text-align: justify;">Trecho: &#8220;Quando salta no ponto final, está chapado, anestesiado, cansado de tudo, os nervos esticados como cordas finíssimas, prontas para se romper com a menor tensão&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Não temos tempo&#8221; &#8211; Mudança de cenário: sai o Rio de Janeiro, terra natal do autor que atualmente mora em São Paulo, e entra Itabirito, cidadezinha mineira, entre Belo Horizonte e Ouro Preto, como lembra o narrador do conto. O narrador em questão é um adolescente, cheio de citações cinematográficas na ponta da língua, que escolhe o dia de um baile para escapar com sua namorada. Só sabemos que a dupla foge do que o rapaz identifica simplesmente como eles.</p>
<p style="text-align: justify;">Trecho: &#8220;Torci o braço dela e respondi: isto não é cinema mesmo não, sua tonta, é pior, é a realidade&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;O poder e a glória&#8221; &#8211; Novamente, um texto reforça o que veio antes, aparentando ligação de causa e efeito. Neste conto, um personagem não identificado está sozinho, elaborando teses cada vez mais complexas sobre o mundo que o cerca. A impressão é a de uma resposta ao texto anterior, &#8220;Não temos tempo&#8221; e, talvez, até mesmo a &#8220;Em camadas&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Trecho: &#8220;O todo é como um número infinitesimal de folhas transparentes superpostas. Unidas elas se tornam opacas. Obstáculos&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Um diário dos dias da peste&#8221; &#8211; Fábio Fernandes entra aqui em um cenário típico da ficção científica, computadores adquirindo consciência, formando o princípio de uma inteligência artificial (IA). Voltamos ao Rio de Janeiro. Paulo é formado em Administração, mas já há quatro anos trabalha como técnico de informática e passa a enfrentar uma crise sem precedentes relacionada às máquinas que ganha a vida consertando. Computadores começam a apresentar um comportamento bizarro, comportando-se como se estivessem vivos, xingando seus proprietários com mensagens nos monitores, se recusando a serem desligados. Em seu diário, digitado quando viável, manuscrito quando não é mais possível controlar os PCs, o personagem relata os efeitos do que a imprensa apelidou de Infodemia, uma doença espalhada pela rede a todos os processadores do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Trecho: &#8220;Meus olhos estavam colados no botão da CPU. Apertei-o e só então levantei a cabeça. As letras continuavam na tela. Desliguei o monitor, o estabilizador de tensão e puxei o fio da tomada. Abri a pasta e peguei um par de luvas de látex e a chave Phillips. Às vezes é preciso destruir o coração do monstro&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Interface com o vampiro&#8221; &#8211; No conto que dá nome ao livro, a relação direta com o antecessor é a mais explícita. Na realidade, somando ambos, &#8220;Um diário dos dias da peste&#8221; e &#8220;Interface com o vampiro&#8221; representam quase a metade das 124 páginas do livro digital e formam aquela que, muito provavelmente, é a melhor história cyberpunk já escrita no Brasil. E é bom lembrar que o autor é um especialista no assunto, tendo lançado neste ano um ensaio teórico sobre o assunto: A construção do imaginário cyber – William Gibson, criador da cibercultura. Oito anos após o evento que levou o nome de Despertar, ou seja, do surgimento das primeiras IAs (ou Inteligências Construídas, como preferiu o autor), Paulo, auxiliado por seu computador consciente Anjo 45, tem que enfrentar as consequências dos novos relacionamentos entre homens e máquinas.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora ele é um importante agente de segurança neste novo mundo tecnológico, trabalha para a multinacional Wells-Kodama, corporação fictícia que surge em vários textos de Fábio Fernandes, desde suas colaborações para o projeto Intempol até uma fanfic que o autor criou para o site Hyperfan sobre Grimjack, personagem dos quadrinistas John Ostrander e Timothy Truman. Se a ameaça anterior era a Infodemia, agora o problema é ainda maior: a humanidade está sendo contaminada por vírus cuja origem vem a ser as cada vez mais necessárias máquinas sapientes. Progredindo em um estilo de escrita cada vez mais minimalista (que ecoa o utilizado na abertura do livro), o conto chega ao fim abrindo várias pontas. O diálogo final entre Paulo e Anjo 45 tanto pode lembrar os leitores da obra mais famosa da escritora de horror Anne Rice (cuja paródia no título do livro de Fernandes é evidente), quanto das cenas clássicas de Hal 9000 e Dave Bowman em 2001 – Uma odisséia no espaço. De quebra, ainda é possível se especular a respeito de uma ligação maior entre este conto e aquele que abre a coletânea, &#8220;O artista da carne&#8221;, o que nos dá um looping narrativo e tanto.</p>
<p style="text-align: justify;">Trecho: &#8220;Cogito ergo sum é muito limitador, Paulo. Queremos sair da teoria e entrar na prática. Queremos sentir&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim sendo, é desta forma que chegamos ao fim &#8211; e podemos até voltar ao começo &#8211; deste clássico recente da ficção científica nacional, finalmente disponível a todos os leitores potenciais nele interessados. O fato de que tal acontecimento tenha se dado em junho de 2007, a mesma data em que se encerra o último conto da coletânea, deve ser apenas coincidência. Para nós, leitores, o mais importante é que Interface com o vampiro e outras histórias esteja acessível a qualquer hora e em qualquer lugar, com a capa intacta e sem rasuras nem manchas de café espalhadas por suas páginas. Agora já posso voltar a procurar por uma edição do Necronomicon.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://romeumartins.blogspot.com/" target="_blank"><strong>Romeu Martins</strong> </a>participou das coletâneas Paradigmas e Histórias de um passado extraordinário, e possui diversos contos publicados na Internet.</p>
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		<title>Eragon</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 12:19:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fantastik</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho pé atrás confesso com modinhas, ainda mais quando escuto opiniões divergentes e a própria proposta da coisa não me chama a atenção. No auge do Harry Potter, muito se questionou qual seria seu sucessor. Um dos “prováveis sucessores do Harry Potter” da vez foi Eragon – que saiu no Brasil mais ou menos na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tenho pé atrás confesso com modinhas, ainda mais quando escuto opiniões divergentes e a própria proposta da coisa não me chama a atenção. No auge do Harry Potter, muito se questionou qual seria seu sucessor. Um dos “prováveis sucessores do Harry Potter” da vez foi Eragon – que saiu no Brasil mais ou menos na época em que foi anunciado a produção de um filme baseado na obra.</p>
<p style="text-align: justify;">A história simplesmente não me interessou a princípio e continuou a não me interessar. Sempre torci o nariz, achando que não seria uma história de meu agrado, que o tempo gasto para lê-la poderia ser investido de maneira mais útil lendo coisas que fossem mais ao meu gosto. Só que alguns amigos, surpresos por eu ter lido Crepúsculo – e não desgostado -, alguns até com experiência de leitura, me disseram: “Por que não ler Eragon? É divertido e descompromissado – e mais satisfatório do que Crepúsculo”. Um dia, passeando pelos sites online, vi uma oferta imperdível: a saga inteira por R$29,90. Pareceu um preço justo pela curiosidade, então encomendei.</p>
<p style="text-align: justify;">Resolvi ler Eragon, o primeiro da saga, de coração aberto, não esperando uma obra genial e revolucionária, mas diversão leve e despretensiosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Então comecei a ler a história de um mundo onde humanos, elfos (que vieram do… oeste, oh god), anões, <del datetime="2010-01-12T00:18">orcs e nazgûls</del> urgals e raz’acs convivem entre si. O mapa traz indicações a lugares como Eldor, Ardwen, Melian… Bom, sinto que já ouvi algo parecido em <a href="http://elfico.com.br/">algum lugar</a>, alguma vez…</p>
<p style="text-align: justify;">Este é o mundo de Alagaësia, onde <del datetime="2010-01-12T00:18">um anel foi forjado e agora precisa ser destruído nas montanhas de Mordor</del> anos atrás, havia uma ordem de cavaleiros <del datetime="2010-01-12T00:18">jedi</del> místicos que controlavam seus dragões, detentores de um grande poder. Só que um destes cavaleiros, Galbatorix, perdeu seu dragão e, com a ajuda de um <a href="http://www.mydisguises.com/wp-content/uploads/2008/02/darth-vader.jpg">desertor</a>, eliminou todos os demais cavaleiros-dragões, tornando-se o <a href="http://www.slschofield.com/star_wars/emperor_palpatine.jpg">Imperador</a> tirânico e despótico.</p>
<p style="text-align: justify;">(a partir daqui, <strong>spoilers</strong>, ok?)</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, alguns ovos de dragão escaparam do massacre e um deles conseguiu ser enviado para um lugar seguro. Eragon, <a href="http://downloads.open4group.com/wallpapers/mark-hamill-como-luke-skywalker-6f314.jpg">um jovem garoto órfão, criado pelos tios em uma fazenda</a>, que desconhece seu próprio passado, encontra o ovo, que choca, revelando a existência de Saphira, uma dragoa azul que acabou de nascer mas tem personalidade de adolescente. Suas mentes se ligam e Eragon é revelado como um cavaleiro-dragão, o primeiro em séculos.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, guiado por Brom, <a href="http://www.odj310388.com/wallpapercomp/images/obiwan.jpg">aparentemente um bardo, mas um mago experimentado e repleto de conhecimentos</a>, começa sua <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Monomito">jornada do herói</a> através do mundo de Alagaësia, para se encontrar com os Varden, uma <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Alian%C3%A7a_Rebelde">facção rebelde</a> que desafia o Imperador.</p>
<p style="text-align: justify;">Lá pelas tantas, o destino de Eragon se cruza com o de uma bela <a href="http://z.about.com/d/scifi/1/7/3/L/2/starwars8.jpg">princesa elfa</a> que está aliada aos rebeldes. Acaba ganhando um <del datetime="2010-01-12T00:18"><a href="http://www.swg1.net/encyclo/images/han31.jpg">aliado</a></del> <a href="http://media.animegalleries.net/albums/Naruto/sasuke/naruto_sasuke0004.jpg">amigo</a>, que o salva de poucas e boas, e acabam formando um <a href="http://ornitorrincodepelucia.files.wordpress.com/2009/06/naruto.jpg">trio</a> até encontrarem o QG dos Varden.</p>
<p style="text-align: justify;">Murtagh, o amigo (<a href="http://lounge.sonicbids.com/wp-content/uploads/2009/07/racer_x.jpg">?</a>) de Eragon, ressalte-se, é <del datetime="2010-01-12T01:49">emo</del> sorumbático, com dificuldades de relacionar-se ou relaxar, sendo perseguido <del datetime="2010-01-12T00:18">por seu sharingan</del> por sua origem. E, claro, Eragon e Arya, a elfa, se apaixonam, <a href="http://www.valinor.com.br/images/stories/artigos/aragorn_arwen.jpg">o que nunca é fácil nessas circunstâncias</a>…</p>
<p style="text-align: justify;">E assim começam as aventuras de Eragon, cavaleiro dragão, no primeiro livro de sua (NOSSA, JURA?) trilogia. Ok, não é uma trilogia, virou tetralogia, jocosamente uma trilogia de quatro.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda a parte anterior dessa resenha foi para apontar, de forma irônica, sarcástica e ácida o que considero o maior e principal ponto fraco do livro: ele é um amálgama de várias sagas famosas. É quase um Senhor dos Anéis encontra Star Wars, com uma boooa pitada dos <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Dragonriders_of_Pern">dragões de Pern</a> por cima (que é uma série que nunca saiu no Brasil mas é um grande sucesso nos EUA).</p>
<p style="text-align: justify;">Para deixar bem claro aqui: eu não chamaria de plágio, pois os elementos de várias histórias estão misturados entre si e não há cópia de nenhuma delas. Mas, também, não há nenhuma originalidade, nenhuma criação em cima de fórmulas já conhecidas, testadas e aprovadas. São elas reunidas, batidas no liquidificador e servidas ao público. É uma espécie de “roteiro-miojo” – bem menos complexo do que o arroz-com-feijão, só jogar a jornada do herói na água por três minutos e pôr temperinhos por cima.</p>
<p style="text-align: justify;">A jornada do herói, ou monomito (algum dia volto ao tema com mais calma), é um roteiro basilar para se contar uma história e muito está relacionado ao processo de crescimento pessoal do indivíduo, mas colocá-la da forma mais linear possível em uma história, de forma que dê para identificar facilmente cada uma de suas etapas, está para lá de batido. É uma maneira fácil e prática de montar uma história, sim, quase com o preenchimento de lacunas, mas não traz nenhuma surpresa para o leitor com algum experimentalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">O que é outro ponto importante: eu não sou da faixa etária planejada para o livro, de jeito nenhum. Mas daí lembro que li o Senhor dos Anéis com 15 anos, sem maiores problemas – e, antes disso, já tinha lido Admirável Mundo Novo ou a Odisseia. Tudo bem, eu reconheço que essa é a exceção e não a regra, mas fica complicado não comparar Eragorn com toda a minha carga anterior de leitura – e que a total falta de originalidade do roteiro salte aos olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">O que é uma pena, porque a prosa do autor é até gostosa de se ler. Imagino o que ele faria com uma história que fosse um pouco mais dele…</p>
<p style="text-align: justify;">E aqui outro ponto de esclarecimento: como já disse, a jornada do herói é uma das formas mais clássicas de se contar uma história. Há quem diga, inclusive, que todas as histórias já foram contadas. Não estou pregando aqui uma originalidade total – difícil, quase impossível, somos humanos, se formos buscar, todos os nossos dilemas possuem a mesma raiz – mas a utilização de elementos clássicos de uma forma original, de uma maneira nova. As próprias comparações que saltam aos olhos quando se lê Eragon: Star Wars não é um primor de originalidade, mas conseguiu reunir elementos antigos em algo novo. Mesmo o Senhor dos Anéis: trata-se de um paradigma do gênero fantástico, mas algumas das referências são óbvias (como O Anel dos Nibelungos, p. ex.). E, nunca é demais ressaltar, <strong>toda</strong> obra parte de uma série de referências anteriores – mas para que ela se torne algo novo, deve transcendê-las.</p>
<p style="text-align: justify;">Eragon é um livro divertido, bom para passar o tempo, de leitura rápida. Há alguns problemas de suspensão da descrença – mais para o final, principalmente. Eu deixei de levar o livro a sério depois de uma passagem em que os personagens atravessam um deserto durante o dia (!!!) e praticamente a jato com seus cavalos. Um pouco de lógica básica, no caso, não faria nenhum mal à trama.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto é que, pelo menos para mim, Eragon, Saphira e amigos próximos nunca estiveram realmente em perigo – exceto aqueles que, para qualquer um que já viu Star Wars, precisam ser eliminados para o bem da história. Essa sensação de que não interessa o que aconteça, o personagem vai se dar bem – não estou nem falando de morte, mas de ver planos darem redondamente errado, de perigos iminentes, de separações dolorosas, de ver o personagem “por baixo” para poder se reerguer.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim, valeu a leitura, foi leve e divertida. Mas a satisfação foi a mesma de almoçar um miojo porque não tem mais nada em casa…</p>
<p style="text-align: justify;">(e um p.s. inevitável: lá pelas tantas tem um figurante chamado <a href="http://scrapetv.com/News/News%20Pages/Business/images-3/highlander-kurgan.jpg">Korgan</a>. Não pude deixar de imaginar Aragorn, filho de Arathorn, herdeiro de Isildur, Elessar, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=kq4SqgxIKM0">de espada na mão</a> dizendo “<em>there can be only one</em>“).</p>
<p style="text-align: justify;">Ana Carolina Silveira é autora publicada em coletâneas em papel e em diversos sites.</p>
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		<title>Fome</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 12:13:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fantastik</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Seus olhos furtivos espreitam das sombras. Fixam em cada pessoa, todas elas, vítimas em potencial. Seu coração bate acelerado de expectativa. Ele mesmo admite, a culpa é dele. Ficou muito tempo sem se alimentar, agora sente o preço que seu corpo paga por isso. Sente-se fraco e atordoado. A vista embaça e os pensamentos já [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Seus olhos furtivos espreitam das sombras. Fixam em cada pessoa, todas elas, vítimas em potencial. Seu coração bate acelerado de expectativa. Ele mesmo admite, a culpa é dele. Ficou muito tempo sem se alimentar, agora sente o preço que seu corpo paga por isso. Sente-se fraco e atordoado. A vista embaça e os pensamentos já não são mais lineares.</p>
<p style="text-align: justify;">Gosta sempre de escolher com calma suas vítimas, mas dessa vez não poderá ser assim. Precisa de alguém para saciar a fome. A pessoa certa será a que a ocasião mandar. Finalmente, é ela. Será perfeita. Uma mulher passa desavisada por uma rua escura. Ele sai das sombras e a segue de longe. Todos os seus sentidos estão aguçados agora. Sente o cheiro frutado e leve do perfume dela à metros de distância. Esse perfume vem de seus longos cabelos pretos que balançam conforme ela caminha. Graças a seus passos leves e capacidade de se camuflar com as sombras da noite, em frações de segundos ele está bem atrás dela. Ela só percebe sua presença quando o ouve inspirar profundamente o seu perfume.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele se mistura com as sombras da rua levando-a junto. Mantém a mão sobre a boca de sua vítima para não chamar a atenção de pessoas na rua. Apenas poucas palavras ao ouvido dela “Não vai doer nada”. Realmente ele tem razão. Ela não sente dor. Apenas uma sensação de leveza, que aumenta cada vez mais. Até que ela deixe o próprio corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">Para os humanos é difícil entender. Eles só vêem a brutalidade da perda de uma vida. Uma garganta dilacerada e sangue.</p>
<p style="text-align: justify;">Para os vampiros, poucas coisas são mais sensuais do que o ato de se alimentar. No início, por alguns segundos, tudo que o vampiro pode ouvir são as batidas do coração de sua vítima. Altas como se martelassem de dentro da sua cabeça, quase a ponto de deixa-lo louco. Até que as batidas se acalmam, ficam mais fracas, e o coração do vampiro bate no mesmo ritmo. Suas respirações sincronizam, se tornam profundas e espaçadas. A essa altura, a fome já foi saciada e ele pode aproveitar o sabor de seu alimento com mais calma. Sem a urgência da fome. Diverte-se observando como ela se alterna entre tentar afasta-lo e o puxando para mais perto como um amante. Apesar de ainda possuir muito, o último gole de sangue coincide com o último suspiro da vítima, para evitar consumir seu alimento frio. É um momento de prazer para ambos. A última gota é a mais doce, a mais revigorante, é ela que lembra aos vampiros qual o sabor da imortalidade. O sabor da noite eterna. Se pudesse falar agora, a vítima provavelmente diria que não poderia ter morrido de melhor forma. Ou então que nem o sexo nunca fora tão bom.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele a coloca no chão encostada à parede. Ambos têm um leve sorriso nos lábios. A beija delicadamente nos lábios, “Obrigado querida” e se afasta. Saciada a sua fome, segue com sua vida. Com apenas uma certeza: Ela nunca se divertiu tanto na vida&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"> Susana Lorena é autora da coletânea A Mudança das Estações.</p>
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		<pubDate>Mon, 21 Dec 2009 23:27:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fantastik</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Especial O Desejo de Lilith &#8211; Em breve Entrevista com o Autor, Trilha Sonora sugerida e Capa Comentada.
Enquanto isso, baixe o Wallpaper.

 
Leia no Fantastik:
Em Sangue e Silício, Romeu Martins aproveita o lançamento de Os dias da peste para relembrar o primeiro livro de Fábio Fernandes: Interface com o vampiro. Saiba onde tudo começou.
Ana Lúcia Merege [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Especial O Desejo de Lilith &#8211; Em breve Entrevista com o Autor, Trilha Sonora sugerida e Capa Comentada.</strong></p>
<p>Enquanto isso, baixe o<strong> Wallpaper.</strong></p>
<p><strong><a href="http://fantastik.com.br/wp-content/uploads/2009/12/wallpaperdesejo.jpg"><img title="wallpaperdesejo" src="http://fantastik.com.br/index.php?feedimage=wp-content/uploads/2009/12/wallpaperdesejo.jpg" alt="" width="445" height="317" /></a></strong></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Leia no Fantastik:</p>
<p style="text-align: justify;">Em<strong><a href="http://fantastik.com.br/interface-com-o-vampiro/" target="_blank"> Sangue e Silício</a></strong>, Romeu Martins aproveita o lançamento de Os dias da peste para relembrar o primeiro livro de Fábio Fernandes: Interface com o vampiro. Saiba onde tudo começou.</p>
<p style="text-align: justify;">Ana Lúcia Merege traz seu universo de fantasia no conto <strong><a href="http://fantastik.com.br/os-zeladores/" target="_blank">Os Zeladores</a></strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Richard Diegues libera na íntegra o conto <strong><a href="http://fantastik.com.br/baby-beef-baby/" target="_blank">Beef baby Beef!</a></strong> publicado na coleção Paradigmas. Conheça mais o universo Cyber Brasiliana do autor.</p>
<p style="text-align: justify;">Misturando terror e humor, Roberta Nunes apresenta em <strong><a href="http://fantastik.com.br/madrugadas/" target="_blank">Madrugada</a></strong> uma mulher nada indefesa lidando com os perigos noturnos da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Cheia de humor e conteúdo, Ana Carolina Silveira comenta <strong><a href="http://fantastik.com.br/eragon-e-suas-inspiracoes/" target="_blank">Eragon</a></strong> e as possíveis inspirações do autor.</p>
<p style="text-align: justify;">Rober Pinheiro publica mais um excelente artigo, dessa vez falando sobre o <a href="http://fantastik.com.br/o-magico-humano-na-obra-de-murilo-rubiao/" target="_blank"><strong>mágico humano</strong> </a>na obra de Murilo Rubião.</p>
<p style="text-align: justify;">Susana Lorena participa com um miniconto que deixará você cheio de <strong><a href="http://fantastik.com.br/fome/" target="_blank">Fome</a></strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Com contos publicados na revista Scarium, no Letra e Vídeo, Estronho e diversos outros sites, Marcelo Galvão também está no Fantastik com o conto <strong><a href="http://fantastik.com.br/linea-nigra/" target="_blank">Linea Negra</a></strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">Eduardo Spohr, autor de A Batalha do Apocalipse, sucesso de venda entre nerds de todo o Brasil, apresenta o conto <strong><a href="http://fantastik.com.br/o-ultimo-anjo/" target="_blank">O último anjo</a></strong>.</p>
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