Clinton Davisson
Release:
Lançado em dezembro de 2007, pela Arte e Cultura, o livro Hegemonia – O Herdeiro de Basten, vem se tornando lentamente um cult-book entre os leitores do gênero. Uma das razões do sucesso está em um trailer feito para a internet, onde o autor aproveitou sua experiência como roteirista de quadrinhos e cinema para criar uma instigante amostra da história. Em dois minutos e onze segundos, ficamos conhecendo os disonianos, uma raça que conseguiu construir uma redoma em volta do seu sol. Orgulhosos de sua supremacia técnica e cultural sobre outros sistemas, os disonianos se autoproclamaram A Hegemonia. Mas o império entra em decadência quando os seus cidadãos começam a migrar para a realidade virtual em busca de um mundo sem frustrações.
Neste cenário começa O Herdeiro de Basten. A história é uma transcrição dos pensamentos do protagonista, Ron Schowlen, gravados pela derma – misto de computador, internet e super-armadura que faz parte do cotidiano dos disonianos. Ron grava seus pensamentos de forma semelhante aos nossos blogs e, em muitos momentos, percebemos certa malícia em suas intenções e algumas informações são omitidas de acordo com o interesse do narrador.
Inicialmente, Ron parece estar satisfeito consigo mesmo e com a sociedade de Dison, o gigantesco mundo artificial sede da Hegemonia no qual vive há 10 anos como estudante. Uma frustração profissional, o faz retornar ao seu planeta natal. Ele então encontra seus irmãos Shodan e Dúnia, respectivamente rei e rainha de Basten, uma região gelada de um planeta do “terceiro mundo” da Hegemonia. Além dos conflitos emocionais com seus irmãos, Ron enfrenta a disparidade tecnológica entre o seu atrasado planeta natal e a confortável super-tenologia da Hegemonia com a qual se acostumara. O autor exibe habilidade ao desenhar este contraste social e tecnológico. Algo que fica ainda mais claro quando entram em cena os gelfos, – marsupiais que vivem em uma terra distante, leigos quanto à ciência, mas ricos em crenças – que tiveram a cidade invadida por agressivos dragões, e não são capazes de lidar com o problema sozinhos. Mesmo não simpatizando com as criaturas e sem entender os motivos pelos quais os irmãos querem ajudá-los, Ron concorda em se juntar à expedição. A partir daí, começa uma viagem rica em personagens de diversas espécies, mundos com peculiaridades, regras e modos de pensar tão próprios, que às vezes nos lembram muito personagens da nossa vida real. Um jeito que o autor encontrou para explicar (ou criticar) o mundo que inventamos para viver.
Esse é, por si só, um dos fatores envolventes do livro. Mas a história vai além. Quando explode a guerra travada contra dragões, as páginas se abrem em um festival de sangue, aonde entram em cena mostras de tecnologia e do lado místico. Ambos convivendo lado a lado na obra, sem que um ofusque o outro.
Há um destaque para os conflitos psicológicos, sobretudo do protagonista. Na Hegemonia, Ron não via rostos, não divisava expressões faciais e as noções de amor, de sexo e até mesmo de amizade, parecem literalmente atrofiadas, pois a derma cobria a todos, criando um mundo frio e impessoal. De volta a seu planeta natal, ele passa a conviver com os espaçosos gelfos, seres capazes de cheirar emoções e, por isso mesmo, não entendem o porquê de escondê-las. Também volta a conviver com a presença da magia e do sagrado, algo quase doloroso para alguém que se acostumou com a frieza e a objetividade da ciência. Com essa mistura de armas, possibilidades high-tech e lendas antigas, a história consegue surpreender ainda mais quando o roteiro usa as expectativas construídas por nossas experiências anteriores com o gênero para criar reviravoltas inteligentes.
Concebido para ser o primeiro de duas trilogias, O Herdeiro de Basten, acaba deixando um grande número de pontas soltas para serem amarradas nos capítulos seguintes. Após tantas reviravoltas apenas no primeiro livro, ficou um gosto de “quero mais” e só nos resta aguardar ansiosamente pelos próximos.
Release escrito por Érika Ferreira, jornalista.
Trechos do livro:
“Dizem que as despedidas são as experiências mais próximas que podemos ter da morte, pois a própria morte é a despedida definitiva. Quando nos despedimos, acho que, de certa forma estamos morrendo um pouco. Mesmo se voltarmos, não seremos mais os mesmos. Quando a despedida envolve uma jornada em direção a uma batalha, a certeza de morte está ainda mais presente.
O zumbido leve de motores anti-gravitacionais denuncia a entrada da capitã Trillina pela porta.
- Teu esquadrão já está pronto? – indaga puxando um saco de frutas redondas de um azul vivo. Antes que eu possa responder ela me joga a sacola e faz sinal para distribuir as frutas.
- Sim, os pequenos são valentes. Acho que darão conta do serviço.
- Vão precisar de toda a valentia dentro de uma hora, talvez duas. Em Dison vocês dirão um centon. É assim que contam o tempo no planeta da noite eterna. Já estive a enfrentar dragões, isso bem já lhes disse. Morte e inferno, companheiros.
- Eu combati os dragões na floresta recentemente, capitã – lembro. – Eles são realmente traiçoeiros… E Dison não tem só noite. Há os orbes que…
- Teu irmão te contou sobre nossa batalha? Contou? Foi há muitos anos! Aqui mesmo, no delta do Rio Akonadi. Saters, como eles mesmos se intitulam. Nós os chamávamos de fúrias. Não tínhamos armas tão evoluídas na época. Projeteis simples não perturbam a vida dos desgraçados. Sua armadura é como dez camadas de escudos, os dentes são espadas, as garras lanças, o choque de sua cauda é como um raio, as asas como um furacão, e sua respiração é a morte.
- Por que vocês entraram em combate com os dragões? – Novamente Eveld pergunta sobre uma dúvida que estava na minha mente, mas eu não tinha conseguido expressar.
- Tu és o jovem gelfo que viajou com os amigos até o reino de Basten, não é mesmo? – reconhece Trillina admirada.
- Sim, meu amigo Onan também estava entre os que fizeram a jornada até Basten – confirma o gelfo apontando o dedo para Onan que até então admirava os comandos da metralhadora como se fossem as desejadas partes íntimas de uma fêmea cobiçada.
- Viajaram meio mundo! Sim, meus queridos! E este mundo não é um mundo qualquer. É um planeta sede da Hegemonia. É maior do que algumas estrelas no céu. Meu planeta natal cabe na metade da distância que vós percorrerdes. Sim, meu planeta natal tem dia e tem noite. Dormimos a noite, se temos prudência e trabalhamos de dia, se o juízo não nos escapa. Mas a noite também existe para beber a ambusa e, no momento oportuno, brindarei a coragem de vocês. Vejo a indagação em seus olhos, jovem Schowlen. Alguém já te disse que teus olhos falam alto? Não é boa coisa para um político. Mas digo-vos agora. Não sou nascida em Elôh. Vim de Tritárdia, mundo original dos merfolks. Sou, portanto, uma das guerreiras mais antigas de minha cidade…”
““Estava uma tempestade naquele dia. Não foi a maior tempestade pela qual havíamos passado, deus sabe que não foi. Mas poderosa suficiente para avariar nossos instrumentos. Cegos que estávamos, nossa fortuna não era das melhores naquele dia. Pois eu era a piloto do navio, bem me lembro, e os pássaros caíam mortos. Não existe agouro pior do que a morte de um pterante. Sua morte traz consigo o véu da tragédia. E neste dia estive a avistar dois pterantes mortos sobre o navio. O que os matou? Dor de barriga, caxumba, infarto, o que importa? O fato é que eles estavam lá, mortos, abandonados pelas almas que agora descansavam no paraíso dos pterantes. Imediatamente a visão dos finados pássaros, avistei o gigante branco; um relâmpago o revelou de seu esconderijo na escuridão da tempestade. Era um iceberg, uma pedra de gelo do tamanho da necessidade a pairar pela nossa frente como um convite à morte e às portas do inferno. Eu fui ágil nas minhas obrigações de piloto, sim, reverti os motores, virei tudo a bombordo e avisei nosso capitão que ordenou ao artilheiro que abrisse fogo no bloco de gelo. Mas não fomos rápidos o suficiente. Houve um encontrão violento que abriu um rombo na carcaça de carbono. Mas não foi isso que nos condenou. Não senhores. Eu lhes digo que buracos no casco podem ser consertados, a água inundando os porões foi drenada no mesmo dia. Mas com a pancada, um pedaço do iceberg desabou sobre nossas cabeças. A torre de comando foi destruída; guardo até hoje as cicatrizes. Meus companheiros me resgataram do gelo antes de validar meu testamento, mas as cicatrizes ficaram. O fato é que doze marinheiros morreram naquela hora. Eu poderia lhes falar o nome de cada um deles e lhes contar o que cada um fazia, seus planos de vida, suas esperanças, seus medos e suas alegrias… Os reparos no navio demoraram cinco dias, mas foram feitos. A torre destruída não nos impediu de operar o navio da sala de engenharia. Ficamos à deriva sem comunicação, sem poder nos localizar. Mas não conseguimos repor as vidas perdidas.”





