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1. Qual a trama de Hansel e Gretel?

HANSEL & GRETEL conta a história de dois irmãos gêmeos albinos e bivetelinos, com um passado trágico, de onde saíram mutilados, vítimas de atos canibais por uma velha antropófaga, em busca do pai na industrial metrópole de Echtra.

Em suas desventuras, eles se deparam com uma garotinha acusada por um homicídio culposo; a apresentadora de um Circo de Horrores; uma dançarina de cabaré mal-humorada; um Mercenário arqueiro e um felino humanóide disposto a protegê-los a qualquer custo! Paralelamente ocorre a trama de uma jovem perturbada e um nefilin disposto a matá-los por propósitos mais complexos do que se aparenta.
Essa é a sinopse-padrão e resume bem a trama, que os leitores poderão conferir em breve.

 

2. Como entram os elementos steampunks da história?

Esses elementos são tanto gráficos quanto conceituais e estão impregnados de forma essencial na trama. Visualmente, o steampunk pode ser notado em toda Echtra, uma cidade industrial, movida a ferro e vapor, onde há construtos com motor funcionando via vaporização, dirigíveis e veículos com um visual diferenciado, trens Maria-Fumaça que viajam pela cidade e em suas entranhas, a vestimenta dos personagens, alguns objetos usados por estes, certos elementos de cenário etc.

Dentro do conceito, o steampunk está ali para explicar a funcionalidade deste universo, a engrenagem que conduz a história principal e a faz se encontrar com as várias subtramas, está na essência dos personagens, seu modo de agir. Está nos braços mecânicos extras de Hansel, no estranho relógio de Alice ou na bizarra máscara de um personagem misterioso que aparece na trama.

O jornalista especialista no universo de animes e mangás, Alexandre Soares (Lancaster), definiu a obra como Fantasia Screampunk, porque além de mesclar elementos fantásticos (a presença de alguém como o ‘vilão’ Turpis, que controla as sombras, por exemplo, algo mais “místico”), com elementos steampunk (cenário, personagens, objetos, explicados acima) e do gênero Terror (há um suspense e fortes dosagens de terror em muitas situações da trama, que também brinca com a bizarria), definiu esta rotulação.

Editorialmente, preferimos não rotular o mangá em gênero algum, para não causar estranhamento num público leigo, já que o objetivo é atingir a todos que queiram curtir uma trama de aventura, com muitas surpresas embutidas, mas é isso.


3. Por que a escolha pelo traço de mangá?

Eu adoro quadrinhos desde que me conheço por gente. Comecei minha carreira de Roteirista com os gibis da Turma da Mônica, ou seja: cartoon, e quis enveredar por outros gêneros, já que sou apaixonado por todos, comics e mangás entre eles. Mas a escolha pelo mangá é pelo fato que sua linguagem cinematográfica é formidável, permite ao contador de histórias gerar uma trama dinâmica e interessante ao mesmo tempo, sem cair no lugar-comum (e isso, assim como em qualquer outro, é possível). O mangá tem toda uma linguagem única, específica, que ao meu ver, para esta trama que eu queria escrever, funcionava mais, sem erro.

Tenho planos futuros para uma graphic novel mais intimista e, na ocasião, por exemplo, contatarei um ilustrador com traço mais próximo dos álbuns europeus, porque o que dita o traço, para mim, é o estilo da narrativa.

Hansel&Gretel, desde sua gestação, sempre teve tudo a ver com mangá. E Ulisses Perez, o excelente desenhista com quem tive o prazer de trabalhar nesta obra, tem um dos traços de mangá mais fantásticos do mercado atual e mundial, inegável!

 

4. Quais as semelhanças entre o conto original João e Maria e seu mangá Hansel&Gretel?

Entenda assim: Hulk, da Marvel, é um personagem único, original, criado pela editora americana. Mas todo seu conceito remete ao Médico e o Monstro (Dr. Jekyll e Mr. Hyde, do Stevenson). Com este mangá é a mesma coisa. Remete, apenas. Parte de um princípio semelhante, mas tomas rumos diferentes. É outra coisa, e de forma alguma é “João e Maria”. E de igual mesmo, só o nome.

Tanto no conto quanto no mangá, as crianças são abandonadas na floresta pelo pai e encontram a Casa de Doces. Mas no original é uma bruxa que transforma tudo em doce e neste quadrinho é uma velha, que cruelmente pratica o canibalismo há anos e se alimenta de crianças ingênuas que batem a sua porta.
Todos conhecem Chapéuzinho Vermelho e notaram pouquíssimas semelhanças entre ela e Lilita Redcap. O mesmo pode ser dito entre Cachinhos Dourados e Sofia Goldynn, entre outros.

Eu os homenageio, colocando um elemento semelhante aqui e ali, ou o mesmo nome, ou até um ponto em comum, como algo em seu histórico ou personalidade. Mas só. Não são os contos recontados por “uma outra ótica” (como o outro mangá da NewPOP, Grimms Mangá, fez de forma competente).

Hansel&Gretel é uma trama original que brinca de forma perversa com o conceito de alguns contos universais e os distorce para narrar uma nova história, plenamente diferente, com novos elementos.

1. Fale um pouco sobre a Draco.

A ideia da Draco começou em 2003, quando lancei uma edição de hentai para conhecer o mercado e me deparei com as dinâmicas de distribuição, aceitação de público e outras dificuldades nunca previstas. Tive alguns êxitos, como reviews na internet, amizades formadas, enfim, uma experiência muito válida, que viria a ser útil justamente 6 anos depois, agora, nessa nova fase da Draco. E o que é essa nova fase da Draco? É um momento de retomar esse sonho de editar livros, não só literatura, mas também quadrinhos, uma grande paixão minha. Pretendo utilizar minha experiência de quase dez anos de mercado editorial para trazer aos nossos produtos literatura de qualidade, com bom visual, lançando novos autores sem esquecer de dar um bom tratamento aos veteranos que tivermos oportunidade de trazer à casa. Os lançamentos prometidos serão constantes, mas tudo dependerá do que recebermos, pois a nossa política é de qualidade em primeiro lugar, mesmo que possa nos custar mais tempo de produção.


2. Qual a proposta da coletânea Imaginários?

A coleção Imaginários será uma série de coletâneas que pretende, ao trazer grandes e novos autores, atrair novos públicos para a literatura de gênero, sem perder de vista os antigos fãs dos gêneros de fantasia, ficção científica e terror, no Brasil. Faremos grandes esforços para termos os maiores nomes que o país já produziu, além de uma atenção especial a novos e talentosos autores que acreditamos que com um pouco de orientação e crítica podem amadurecer para o mercado. Nesse processo tenho certeza que cresceremos muito e teremos oportunidade de conhecer muitos bons textos guardados pelos autores brasileiros, esses “dragões”, vigias de tesouros. Queremos esses dragões na nossa Draco, compartilhando essa literatura marginalizada e dispersa pela rede em edições dignas de seus esforços. A coleção Imaginários, então, seria a principal porta de entrada que a Draco tem a oferecer a novos autores, mas não é a única.

 

3. Como você vê o mercado de literatura de gênero, do Brasil

Acho que há esforços sérios de editoras e que devem ser honrados. Mesmo as maiores que estão publicando literatura de gênero não devem ser vistas como oportunistas, mas como desbravadoras para um público que demandará mais dessa literatura, uma oportunidade enorme para editoras que começaram a investir em autores nacionais e podem oferecer sua produção a esse público que tem tudo para se identificar temas e ambientes mais familiares. Mesmo as coletâneas sob demanda, que têm lançado alguns autores muitas vezes mais crus, podem ser um ponto de partida para que se possa formar produtores de textos de qualidade num futuro.

É verdade que ainda impera muito amadorismo e um resquício de práticas mesquinhas e que só fecham o próprio mercado, mas acredito que, como no caso dos quadrinhos (que só separo por formalismo, pois é uma forma de literatura, em minha opinião), a literatura de gênero encontrará mais autores, mais eventos, mais público, mais lançamentos, tornando-se sólida e conquistando espaço e respeito em livrarias e distribuidoras.

 

4. O que você, como editor, vê como essencial nesse segmento?

Profissionalismo. Não é novidade, não há nenhum segredo, nisso. Os profissionais encontram caminhos, lutam por soluções, abrem espaço com negociações e conseguem o melhor para o público, autores e distribuidores, num ambiente em que as editoras só tem a ganhar. Se houver profissionalismo, tudo acontecerá naturalmente. Mas é preciso que se entenda o sentido da palavra amplamente, não apenas no que está à superfície. Profissionalismo é remuneração justa a colaboradores, é o fim de politicagens que favorecem três ou quatro, é o fim dos bairrismos, da exploração de iniciantes e a presença, finalmente, de algo que ainda falta muito, ainda mais nesse meio de produção intelectual: autocrítica. Menos ego, mais produção, sempre com autocrítica.

01. Para quem está chegando agora, o que é o gênero Steampunk?

R: O Steampunk é um subgênero de Ficção Científica nascido do também subgênero Cyberpunk, uma contraposição da FC positivista de meados do século XX, a qual geralmente mostrava um futuro quase perfeito, sem nossos problemas atuais. Assim, o Cyberpunk mostra um futuro mais próximo (de 50 a 100 anos no máximo) e pessimista (punk) onde a tecnologia (cyber) perverteu a sociedade.

No Steampunk temos essa mesma idéia da luta pela supremacia tecnológica pervertendo as pessoas, só que colocada na Era Vitoriana.

Assim, ao invés de realidade virtual, nanotecnologia e coisas assim, temos a tecnologia do século XIX (vapor, início da eletricidade e do motor a explosão, assim como balões, dirigíveis e automoveis, navios a vapor, submarinos, protótipos de aviões e robos) dando as cartas, modificando a sociedade da época, fazendo entrar na mesma decadência que o cyberpunk vê como presente em nosso futuro próximo.

É esse possível trabalho com a história que faz com que o Steampunk muitas vezes seja uma História Alternativa (subgenero da ficção que trabalha linhas alternativas de nossa história), pois uma tecnologia que não deveria existir, ao menos na proporção apresentada nas estórias, termina por modificar a história como nós a conhecemos.

Um dos grandes trunfos do Steampunk, inclusive, é trabalhar personagens reais que tenham vivido na época, e faze-los contracenar muitas vezes com personagens literários de estórias que, apesar de antecederem a criação do genero em questão, nascido no final dos anos 80, início dos 90, trabalharam essa idéia. Assim, podemos ver, por exemplo o Capitão Nemo, de 20 mil Léguas Submarinas; Robur, de Robur, o Conquistador, ambos de Julio Verne; ou o Dr. Frankenstein, do livro de mesmo nome, de Mary Shelley, contracenando com cientistas e inventores reais como Santos Dumont ou Nikola Tesla.

 

02. Dá para trabalhar o Steampunk em um cenário brasileiro?

R: Apesar de, devido a ligação com a Era Vitoriana, as estórias normalmente se passarem na Europa, não existe nada que impeça o autor em trabalhar outros cenários, seja na Russia, no Oriente, ou mesmo no Brasil. No livro mesmo existem contos que acontecem aqui, ou com personagens brasileiros, ficcionais e reais.

 

03. Algum conto te surpreendeu em especial?

R: Praticamente todos os contos me surpreenderam de uma maneira ou de outra. Seja por sua ligação com personagens literários, com personagens históricos, ou como eles lidaram com a história e a teconologia  do século XIX, o que eu sei, demandou bastante pesquisa. Isso sem contar a criatividade dos autores em trabalharem o gênero, mesclando o mesmo com outros, como o drama de guerra, o suspense, o romance, o terror e a aventura. Realmente o conjunto do livro ficou, como o próprio nome indica: extraordinário.

Sem advogar em causa própria, da capa aos contos, o livro está valendo a pena!

 

04. O que você mais gostou ao escrever Steampunk?

R: Por mais incrível que pareça, apesar de haver gostado de clássicos como Blade Runner (o livro e o filme), e Neuromancer, e de ser um leitor de gostos ecléticos, eu me ligo bem mais nos gêneros ligados à Fantasia do que em Ficção Científica. Assim, o que eu gostei em escrever Steampunk foi que, por minha estória ser uma Ficção Alternativa ligada a história do século XIX, ela pessoalmente me pareceu bem mais como uma aventura de Fantasia do que efetivamente como uma narrativa de Ficção Científica. Ou quem sabe, por nunca haver tentado escrever, eu só tenha me surpreendido com o gênero. Tanto que espero escrever mais, tanto Steampunk como outros subgêneros da FC.

 

05. Finalmente: O que podemos esperar da Tarja daqui para frente?

R: Bom. De minha parte (como escritor), posso dizer que gostei tanto de escrever Steampunk e da trama que criei para meu conto, que estou dando continuidade ao projeto e transformado-o num romance. Aguardem!

Já em relação a Tarja (como editor), eu posso garantir que nossa idéia não é ficar só no Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário, mas trabalhar outros com a mesma idéia de unir autores que estejam despontando no mercado de Literatura Fantástica em torno de um conceito. No caso do segundo volume, nossa idéia é trabalhar o gênero que gerou o Steampunk (citado inclusive em questões acima), o Cyberpunk.

1. Fale um pouco sobre a história de Kaori: Perfume de Vampira?

“Kaori” traz dois mundos, duas histórias, duas narrativas distantes no tempo e espaço. A protagonista principal, Kaori, é uma garota que foi transformada em vampira durante a adolescência na época do Japão feudal. Uma parte do livro conta como foi essa transformação, de que forma Kaori atravessou dois séculos, sobrevivendo nas sombras durante o período Tokugawa, no Japão. A Kaori do passado se depara com pérfidas cortesãs, bravos samurais, daimyôs impiedosos e criaturas fantásticas do folclore japonês como nekomata, um gato monstruoso de duas caudas, ou os karasu-tengus, demônios com corpo de gente e cabeça de corvo.

Outra parte do livro se passa na São Paulo atual, quando Kaori se envolve com um mortal, Samuel Jouza, um homem que exerce uma profissão peculiar – ele é um vampwatcher, um observador de vampiros que cataloga os desmortos para um misterioso instituto de pesquisas. Uma trama de suspense vai se desenrolando em meio ao caos urbano da megalópole paulista. Entram em cena os modernos vampiros urbanos providos com toda a parafernália tecnológica dos paulistanos endinheirados, o intrigante instituto de pesquisas e os seus objetivos secretos, o aparecimento dos famélicos, uma nova raça de criaturas fantásticas, e a nevrálgica relação entre a vampira Kaori e o mortal Samuel.

As duas partes vão sendo narradas em paralelo, os capítulos do passado se alternando às do presente, os acontecimentos do século XVII desvendando os mistérios de 2008, até se fundirem ao final. É importante que o livro seja lido na ordem para que a leitura seja mais recompensadora e intensa.

 

2. Qual a relação com suas obras anteriores?

Kaori  se tornou conhecida na coletânea Amor Vampiro, publicada pela Giz Editorial em 2008. No conto da coletânea, Dragões Tatuados, ela e o vampwatcher Samuel se encontram pela primeira vez, com todas as implicações perigosas decorrentes de um relacionamento humano-vampira. Na verdade, o Dragões Tatuados é uma parte do livro Kaori, que ainda se encontrava em estado embrionário, que reescrevi em forma de conto para a coletânea. Antes disso, a personagem já tinha aparecido em dois contos curtos, Gueixa e Kyuketsuki. Por aí dá pra se notar que Kaori estava lá, na minha cabeça, há tempos, querendo crescer.

Isso aconteceu depois de uma conversa com o editor Ednei Procópio, da Giz, na Bienal do Livro de 2008. Eu tinha resolvido dedicar seis meses da minha vida, abandonando todos os outros compromissos extra-literatura, para escrever. Apenas escrever. Só não sabia direito o quê. Ednei me disse: “reveja tudo o que você fez até agora como escritora e aí decida no que vale investir esses seis meses”. Fui pra casa aquele dia pensando nisso.

Bom, foi graças à participação na Tinta Rubra, um grupo de escritores de contos de vampiros, que eu comecei a escrever regularmente. Já era conhecida no meio como “escritora de vampiros”, graças aos meus livros anteriores. Os leitores sempre me pediam um romance de vampiros. E, por fim, eu mesma sentia que faltava ainda produzir algo mais longo, mais complexo, dentro do tema. Ora, era inevitável que o meu primeiro romance fosse de vampiros.

Analisando o material que já dispunha, notei que já tinha cerca de sessenta páginas de Kaori , escritos em diferentes épocas, onde estava mais ou menos delineada parte do seu passado, além de algumas situações de uma aventura no presente. E eu sempre desejara escrever uma história que tivesse como cenário o Japão antigo, de samurais e xóguns. Pronto, havia motivos suficientes para escolher Kaori  como o meu primeiro romance. Ele se tornou uma consequência natural da minha trajetória até aqui como escritora.

 

3. Como foi a transição dos contos para o romance?

Ah, escrever um romance é muito diferente de escrever um conto. O conto precisa necessariamente de boas idéias para funcionar, mas, depois que você as tem, flui rápido, termina logo. Você pode escrever um bom conto nas suas horas livres, como um hobby. Eu demoro poucas horas para terminar o primeiro esboço de um conto médio. Bem, para acabar a primeira versão de Kaori levei cerca de sete meses. Para escrever um romance do jeito que eu queria, todo o esforço tinha que ser multiplicado. Foi uma mudança até de estilo de vida, pois, como disse antes, havia deixado o meu emprego para trabalhar exclusivamente com literatura durante um período. Passei a dedicar doze, catorze horas por dia para escrever Kaori. Passava os dias sem horário fixo, levantando no meio da madrugada para trabalhar, pesquisar sobre determinado assunto. Comia fora de hora, dormia ao amanhecer, estava com a mente ocupada o tempo todo com o enredo de Kaori. Teve dias que não coloquei o nariz para fora de casa, trabalhando sem parar, obcecada em concluir alguma cena mais difícil. Nos últimos meses, passei a ignorar até os e-mails, deixando de abrir a caixa postal durante dias. Não entrava mais no Orkut, nem nos grupos de discussão. Isolei-me completamente em termos virtuais, só falava pessoalmente com a minha família, os amigos mais próximos, o namorado. Não queria perder tempo com outra coisa. Queria acabar Kaori, e logo. Não sei se isso acontece com todo mundo, mas para mim foi mesmo uma mudança brusca de hábitos, de atitudes, de vida. Kaori representou uma aventura à parte na vida real da escritora.

 

4. Quando vai ser o lançamento e onde? Como se sente agora que Kaori está prestes a sair do forno?

Estou em pleno TPL – tensão pré-lançamento! Agora que a notícia da chegada de Kaori  está correndo, percebi que tem um monte de gente, que me conhece de diferentes formas, de diferentes lugares, que está me incentivando mandando mensagens, falando comigo. Muitos leitores que se aproximam e deixam um voto de sucesso, uma palavra amiga. Isso foi um aspecto muito positivo, que me emocionou muito. Eu sei que fiz tudo o que podia para que o livro saísse o melhor possível, e que Kaori é um bom livro. Eu tenho consciência, também, que ainda tenho muito a aprender, que Kaori é um dos muitos passos que ainda tenho a dar para me tornar uma escritora cada vez melhor. Mas, mais do que nunca, não quero decepcionar todas essas pessoas amáveis que estão torcendo por mim. No momento, Kaori é como o primeiro filho, que sai agora das vistas da mãe para correr o mundo, caminhar com as próprias pernas e enfrentar por si mesmo todos os desafios. E isso dá um misto de medo, de expectativa e de muita, muita ansiedade!

Agora, o convite. O lançamento em São Paulo vai ser no dia 3 de setembro, uma quinta-feira, às 19h30 na Saraiva Megastore do Shopping Paulista. Vai ter também um lançamento na Bienal do Livro, no Rio, no dia 13 de setembro, domingo, às 16h00. Espero todo mundo lá – e aqui!

1. Como a coletânea Território V trabalha o tema dos vampiros?

Kizzy Ysatis: a pretensão é ser o menos clichê possível. E na hora de selecionar os nove escritores no concurso nacional que propus, escolhi os contos que pendiam para a alegoria, onde o vampiro era metáfora que denunciava os erros humanos, nossa vulnerabilidade e vergonha, ou melhor, nossa natureza. Isso foi difícil porque os escritores estavam acorrentados à ideia de clãs e RPG, não que eu não goste. Adoro. Entretanto, quando anunciei “Vampiros em guerra!”, a maioria verteu para o lugar comum e foram poucos os que adivinharam o espírito da coisa. Claro que não divulguei meus planos, senão seria fácil, ou melhor, iam forçar a barra. Eu sabia que encontraria os contos certos, e encontrei, e são maravilhosos. Foi verdadeira caça ao tesouro. Os vampiros estão lá, claro que não trairia o mito, mas também está O NOVO. Então, não vou estragar as surpresas falando mais, mas tem muito conto mascarado de mesmice, só para “Nhackt!” (como diz a Lygia), te abocanhar com a surpresa, acaso não é essa a função do bom conto? E a maioria das narrativas vem na sutileza da literatura, nada à mostra, você só vai encontrar os sabores se degustar o perfume, mesmo lendo de uma assentada, como sabiamente instrui Poe.

No caso dos escritores convidados, foi ao contrário, eles sabiam sem eu precisar dizer que era hora de sair do batido. Só chamei gente de primeira, mas também, quem estava mais próximo do meu convívio, gente que eu sabia que não diria não. Gente que me conhece e aposta nas minhas ideias malucas, tanto que, o livro nem foi lançado e já temos concorrentes seguindo o lance da temática, rs. Isso é salutar, é assim que se faz escola, e me orgulho por estar à vanguarda. Mas falando dos convidados, quando o jornalista e escritor Camilo Vannuchi (ISTOÉ, Época) aceitou o convite dizendo que ia fazer diferente e ia pintar seu vampiro no sertão, eu lhe disse: “Pois faça, é exatamente o que quero”. Muitos preconceituosos poderiam torcer o nariz com a ideia, mas nem imaginam como isso é bom. Ou como ficou bom. Tem muito metropolitano com preconceito contra nordestino, você sabe, mas sabe também da nossa dourada cultura nordestina. Vannuchi usa um regionalismo (e na norma culta) à la Guimarães Rosa, ao menos foi essa a impressão que passou a outro escritor que leu o conto, “Voltamos aos tempos de Diadorim” (Grandes Sertões: Veredas). Ao meu ver, senti que os outros veteranos também estavam de saco cheio das mesmas histórias. Calma, também não é uma revolução literária que estou vendendo aqui, vamos pôr os pingos nos “is”, são, sim, as mesmas histórias, mas aumentamos o teor etílico, ou, pra quem não bebe álcool, posso dizer que coloquei uma gotinha de limão no refri. Se ficou legal, caberá a quem ler julgar se logramos êxito ou se ficamos à deriva de uma vã tentativa.

 

2. Qual foi o processo de seleção dos textos?

Kizzy Ysatis: mal anunciei o livro e o processo começou. No anúncio dizia: “não precisa pagar nada”. No dia seguinte a caixa de e-mails estava tão abarrotada que foi uma confusão organizar o pandemônio. Contos do Oiapoque ao Chuí. E eu organizando? Há, há, há. Flávia Muniz diz que eu sou o caos, mas acrescento: um caos criativo. Comecei a triagem já pelo português. Muitos erros, lixeira! Depois comecei a leitura exaustiva. Muitos contos imitando o Crepúsculo, lixeira! Enfim, depois de árduos 7 meses e 130 e muitos contos, eis 9 vencedores. O prêmio: a publicação com os outros 10 convidados.

 

3. Acho muito bacana misturar nomes novos e consagrados. Acha que coletâneas assim ajudam na renovação do mercado?

Kizzy Ysatis: ajudam. Apadrinham esses novos autores que foram garimpados. Eles são um achado. Colocando-os misturado com os mais experientes, você nota que os escolhidos não perdem em nada para os convidados, e que realmente merecem estar no livro. Não pagaram para estar ali, estão por mérito. Nada paga a glória! É com isso que a Terracota Editora tem se preocupado e, mal começou e já é respeitada e elogiada nas rodas intelectuais de todo o Brasil. Não tem uma dúzia de livros no catálogo e seus livros, nascidos cults, já são resenhados pelos principais jornais do país, no caso a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, um dos livros já está concorrendo ao Oscar dos quadrinhos no Brasil, que é o HQ MIX, com o Prática de Escrita: Histórias em Quadrinhos. A antologia Blablablog é, segundo o Estadão, a primeira seleção de textos brasileiros publicados inicialmente em forma de blog. Quanta moral, hein?! Por trás desse sucesso emergem os nomes de Carlos Andrade e Claudio Brites, ambos escreveram um livro comigo do qual falarei depois. Gente premiadíssima se encontra na Terracota, vale citar Marcelino Freire e Nelson de Oliveira, sem se esquecer da lendária Tatiana Belinky, e outros da vanguarda como a Índigo, por exemplo, e muitos mais. Até o Santiago Nazarian, este prodígio da literatura de ponta, de certa forma, está na editora. Ele é responsável pelo prefácio do AlterEgo, organizado pelo Octavio Cariello, meu antigo professor de roteiro.

 

4. Quais são seus próximos projetos?

Kizzy Ysatis: meus próximos projetos são todos em parceria. A Tríade: um romance épico montado por 4 cabeças, foi literalmente sonhado pelo escritor e pró-reitor da Universidade Cruzeiro do Sul, o Dr. Carlos Andrade, escrevi com ele, com o mestre Octavio Cariello e com o Claudio Brites (um talento exponencial que ainda não se deu conta disso). A narrativa fala de um mistério envolvendo um anjo, um templário e um vampiro. Um trio peculiar. Dá para adivinhar o que poderá surgir dessa união? A Tríade deverá sair pela Novo Século editora brevemente.
O seguinte é outro romance também em parceria, no caso, em dupla. Flávia Muniz e eu. (parafraseando o amigo escritor Luiz Roberto Guedes: a Flávia é minha bruxa madrinha). Deste livro só posso dizer que não teremos vampiros, porém não será menos terrível e assustador.
O terceiro é outra antologia, bem poderosa, aliás, apenas com cinco autores. Uma antologia incomum, por sinal, como tudo o que busco fazer. Esse livro é outra de minhas idéias malucas que os amigos compraram de olhos fechados. Ainda não posso falar muito porque é segredo de Estado.

Foi um insight, uma epifania. Acendi um cigarro, desses que o governo e as pessoas sem imaginação e “não suspirantes” (como diz Mario Quintana) perseguem, esses que invejam os criativos e poluem o mundo com coisas mais nocivas que o cigarro. Pois bem, ao acender a brasa, uma chama se alastrou para o meu peito e, Bingo! Já sabia o título, quem eu iria chamar, como seria o projeto, como seria a capa, quem faria a capa e quem convidaria para assinar o prefácio. Me foi tudo entregue assim de bandeja pelos deuses. Nessa coisa que me vem vez ou outra e que chamo de Relâmpago Mágico.

Telefonei para o primeiro da lista: o megastar André Vianco, e ele topou imediatamente. Me senti orgulhoso e feliz quando ele me escreveu depois em um dos e-mails: “Kizzy e suas ideias geniais”. Ele já vinha elogiando meu trabalho há bastante tempo, pelo país à fora, em todos os eventos em que ia. E quando eu o agradeci, ele me respondeu carinhoso como sempre é:
“Elogio mesmo, com maior prazer, porque o Diário da Sibila Rubra é uma peça de arte, meu irmão. Muuuuito bom.  Sinceramente, na nossa área, tem pouca coisa para comparar. Adorei vários trechos.”.

Agora estamos juntos nessa, perpetuando nossa obra no imaginário dos amantes da literatura fantástica dessa nova geração que há alguns anos nos acompanha. Gente que lê o André, a mim e a esses outros três nomes que, por enquanto, manterei em segredo. É surpresa! Ou não. He. He. He.

Eu havia convidado o André para o Território V e ele só não pôde aceitar porque está envolvido na pesquisa profunda, e escrita cuidadosa, de seu melhor livro. Nunca ele demorou tanto para escrever, nunca aspirou tanto em dar vida a uma história, confesso que ele me pôs curioso ao telefone. Esperem por mais um sucesso do pai dos Sete.

1. Qual foi o processo de seleção dos contos do Empadas e Morte?

Tem contos desde quando comecei a escrever em 2004, como é o caso do “Chovia muito naquela noite”, que foi o meu primeiro conto, até contos bem recentes e inéditos em outras publicações. Incluindo-se aí dois contos que foram recusados recentemente para duas coletâneas: “O Desertor” e “Fantoches”. Quanto a seleção, foi bem pessoal mesmo. Peguei os que gosto mais (exceto os que estão reservados para um futuro livro em papel), sendo que alguns destes tiveram boa repercursão quando publicados no meu site ou em blogs, zines e listas de discussão, como foi o caso de “Mortos não comem empadas” e “Eu vejo gatos mortos”. No início a idéia era colocar apenas dez contos, mas não consegui resistir. E ainda quase coloquei alguns minicontos publicados no Terrorzine, mas isso fica para um próximo e-book.

2. O título me dá a idéia de terrir, aquela mistura gostosa de terror com humor. É por aí?

Não exatamente todo o e-book. Alguns contos tem sim um pouco de humor negro e muita ironia, mas outros nem passam perto disso. A idéia do nome veio do conto “Mortos não comem empadas” e essa frase “Empadas e Mortes” eu usei em um poema que falava sobre esse pretenso escritor que vos escreve e suas insanas escritas, onde eu defino que sou “empadas e mortes”, pois gosto de escrever essa mistura de estilos. Não me prendo a uma só forma literária. Outro nome cotado foi “Puta que pariu!”, nome de um dos contos selecionados para o e-book, mas achei que isso ia espantar mais do que despertar a curiosidade, pois infelizmente a hipocrisia ainda impera por aí.

3. Como é lançar um e-book? Acha que os e-books já têm o espaço que merecem?

Cara, vou ser sincero: Não faço a mínima idéia! Estou testando. Queria divulgar meu trabalho e como ainda não tenho como publicar meu livro solo, foi o que me veio em mente. Estou arriscando e vamos ver o que vai dar. O número de downloads está até acima do que eu esperava e as visualizações do book trailer também. Tenho contado com amigos e fãs que estão ajudando muito na divulgação. Alguns comentários que recebo no site, por email ou mesmo por msn e orkut são bem animadores. Mas tenho ciência de que muita gente não curte ler no computador e com isso perco um pouco de público. Mas também ganho pelo lado da gratuidade. Acho que por enquanto está valendo a pena.

4. Outros projetos em mente? Mais e-books podem vir por aí?

Tenho algumas idéias arquivadas por aqui. Contos, romances e e-books também. Mas ainda não defini quando seria a melhor hora de lançar outro e-book. Se antes ou depois de publicar um livro solo de contos (que já está praticamente terminado). Por enquanto, de confirmado mesmo, tem a participação nas antologias: Metamorfose, a fúria dos lobisomens  e em um novo projeto a ser lançado por esses dias, chamado Zumbis, quem disse que eles estão mortos?, onde apareço como convidado especial. Ambas são organizadas pelo Ademir Pascale. Paralelamente, estou tentando ser selecionado para outras duas antologias.

1. Qual a ideia por trás de O Vampiro da Mata Atlântica?

O VdMA nasceu de uma situação que imaginei, envolvendo um biólogo e um vampiro. Era para ter uma página e meia, mas saiu um conto de quinze páginas. Meus leitores-beta gostaram do conto, mas acharam insuficiente para explorar todo o potencial do enredo. Então o ubíquo Silvio Alexandre deu a palavra final: transforma em livro. Foi o que fiz.
Na época, estava fascinada pelo romance A Terrible Beauty, da canadense Nancy Baker, que usa elementos clássicos das histórias de vampiro (o personagem urbano que chega a uma mansão isolada, a floresta, os aldeões que sabem algo que ele não sabe) para criar uma fábula que se passa em local e época indeterminados, mas com um sabor inconfundível de Canadá. Depois de pensar bem, cheguei à conclusão de que daria para fazer algo parecido usando nossas próprias florestas, e achei que a região do Alto Ribeira, no sul de São Paulo, seria perfeita para isso.
Por outro lado, nessa época eu já estava trabalhando em O Vampiro antes de Drácula, a antologia crítica que publiquei junto com Humberto Moura Neto, e explorando as fontes do vampiro pré-literário.
Assim, resolvi juntar tudo: minha trama “biológica”, a brasileiríssima Mata Atlântica, a estrutura das história clássicas e o vampiro do folclore europeu. Acho que deu certo. Os leitores-beta adoraram, e já tem muita gente (em especial meus colegas biólogos, mas não só) ansiosa para ler.


2. É impressão minha ou ele tem influência dos seus trabalhos na área de ornitologia?

É isso mesmo. Esse livro é uma espécie de encruzilhada, uma convergência de dois caminhos que venho percorrendo há anos: o da literatura fantástica e um outro, muito mais longo e acidentado, de divulgação de ciência. Existem traços desse casamento improvável em praticamente todos os meus textos literários, tanto as crônicas quanto a ficção, mas nesse aí a coisa ficou escancarada.
O trabalho dos pesquisadores no meio do mato é fascinante, especialmente num país tropical e megadiverso como o Brasil, e é curioso que tão pouca gente se dê conta disso, em especial os próprios pesquisadores. Eu mesma só percebi como era rico esse filão depois de muitas perguntas e insistência por parte da Giulia Moon.
Em O Vampiro da Mata Atlântica, todo o cenário, os personagens e as situações vividas são calcados em minha experiência como ornitóloga. Menos a parte do vampiro. Eu acho.

 

3. O que os fãs de Relações de Sangue podem esperar: quebra ou continuidade?

Eu diria: quebra, pausa e continuidade.
Quebra: O VdMA se passa em um universo ficcional diferente de RdS. São histórias independentes, com linguagem diferente e abordagem diferente. Este livro novo é uma história de aventura e suspense, enquanto o anterior era um romance policial, com muita sedução.
Pausa: eu não abandonei o arco da história de RdS. Ainda não perdi a esperança de publicar a continuação, Amores Perigosos.
Continuidade: da mesma forma que RdS, o VdMA tem uma narração bem humorada, e os personagens são visivelmente brasileiros, não adaptações da ficção estrangeira. Tenho a impressão que é tão fácil o leitor identificar-se com Xavier Damasceno como foi com Maria Clara Baumgarten.

 

4. E depois de O Vampiro da Mata Atlântica?

Estou numa fase de muito pouca escrita ficcional. Atualmente trabalho em dois projetos: um livro escolar de biologia, para a SM Edições, e um guia das aves do Brasil, para a Wildlife Conservation Society e a Editora Horizonte Geográfico. Também estou trabalhando na tradução de alguns contos. Em breve deve sair, ainda, um conto inédito meu em uma antologia vampírica. Espero em breve conseguir publicar o tão aguardado Amores Perigosos, e tem mais um ou dois projetos antigos, de não-ficção, que quero retomar.
E se ainda sobrar tempo, tem um monte de livros de vampiros, lobisomens e outros seres sobrenaturais se empilhando em minha cabeça, na maioria inspirados em minhas viagens e aventuras!

1. Para quem chegou agora, o que é a saga Alma e Sangue?

Os livros da série Alma e Sangue falam da descoberta da imortalidade e do mundo dos vampiros, suas leis e as criaturas que nesse plano habitam. Tudo isso será revelado por Jan Kmam, o favorito do rei, um vampiro poderoso e sedutor que despertou no nosso século com sede de sangue e de vingança. Ele vai levar Kara a conhecer sua natureza, a das pessoas que a rodeiam e levá-la além dos seus limites. Os seus olhos mortais serão privilegiados com um mundo proibido. A máxima é a mesma para qualquer mortal: se vai caminhar na noite, esteja bem acompanhado. Se não estiver, você é presa, e eles são os caçadores.

O amor que os une desde o primeiro momento vai perdurar durante a série e ser a chave-mestra para o passado, o presente e o futuro de ambos. À medida que Kara descobre a imortalidade, cresce a responsabilidade e os perigos que precisa enfrentar. Ao longo da série alguns mitos serão desvendados. Os personagens antigos permanecem, mas se reunirão a eles novos personagens. Muitos deles são criaturas bem peculiares. Os obstáculos serão muitos, mas eles só fortalecerão os personagens, que estarão em constante aprendizado e evoluindo junto com a trama do livro.

2. Qual a história de O Império dos Vampiros?

Como o título sugere, Kara está diante dos seres que governam o Império dos Vampiros. O rei, os poderes que ele comanda e vampiros antigos que somente buscam mais poder. A origem dos vampiros de Alma e Sangue e a do rei, Ariel Simon, será revelada. Inimigos novos e velhos surgirão para cobrar dividas do passado. Justiça e morte ficarão frente a frente. Nesse segundo livro, surgirá um novo vampiro e sua presença permanecerá, acredito eu, até o último livro da série. Seu nome é Radamés. Romance, aventura terror e muita ação em Alma Sangue, O Império dos Vampiros. É o que os leitores podem esperar.

3. Quais as diferenças do livro 1 pro livro 2?

No primeiro livro da série temos a impressão de que estamos em casa. Existe uma falsa sensação de segurança que cai por terra quando Jan Kmam aparece. Daí em diante não se pode esperar nem ver a realidade do mesmo modo. Tudo mudou e o que você acreditava ser verdadeiro toma contornos bem diferentes. No Livro dois o clima é de insegurança, o leitor será levado para dentro do mundo dos vampiros, a noite prevalece e dentro dela eles imperam como senhores absolutos. Agressivos, imortais, cruéis, é isso que eles mostrarão: a sua verdadeira face. A inocência se perdeu e com ela todas as reservas. O tempo é agora.

4. Como tem sido a receptividade dos fãs?

Não é de agora que os fãs se comunicam comigo, eles são sinceros quando dizem que apreciaram o livro. Percebo que me escreve porque gostaram e querem mais e mais. Tento falar com todos e me considero uma pessoa bastante sortuda em tê-los como aliados e incentivadores, graças a eles a série se tornou uma realidade e é graças ao desejo deles que prossigo. Só tenho a agradecer o carinho, os e-mails com mensagem de força e incentivo.

1.       Qual a proposta do projeto Paradigmas?
A idéia principal do Projeto Paradigmas é traçar um perfil dos autores que vem atuando com freqüência nessa época, independente da mídia utilizada. Muitos escritores tem uma boa produção, porém não possuem trabalhos expostos ao público em uma mídia permanente, ou mesmo catalogados em uma compilação que resista para a posteridade. Esta coleção tem previsão inicial de doze volumes, com projeção para alcançar 25, dessa forma pode cumprir essa meta a contento. O processo de seleção dos textos é extremamente rigoroso, de tal maneira que além de grandes nomes, teremos também o melhor dessa produção.

2.       Existe uma continuidade do Projeto em andamento?
Para este ano teremos a publicação bimestral dos volumes. O primeiro foi lançado em março, o segundo está fechado para ser lançado em maio, o terceiro está sendo fechado para julho. O quarto e quinto volumes ainda estão abertos e recebendo textos para seleção, com lançamentos calculados para setembro e novembro, respectivamente. O segundo volume conta com a participação dos escritores:  Ataíde Tartari, Raul Tabajara, Flávio Medeiros, Camila Fernandes, Fernando S. Trevisan, Gabriel Boz, Ademir Pascale, Luciana Muniz, Ana Cristina Rodrigues, Saint-Claire Stockler, Ricardo Delfin, Ubiratan Peleteiro e Richard Diegues.

3.       Acredita que uma boa geração de contistas vem se formando no país?
Atualmente o nível dos contos vem melhorando conforme mais deles são produzidos. Mas ainda assim para cada volume do Paradigmas ser produzido, recebemos cerca de 80 contos para conseguir selecionar os 13 necessários. Existem alguns autores que acharam seu caminho e conseguem escrever contos com uma grande capacidade de síntese e ainda assim com um enredo bem estruturado e personagens (ou ambientes) complexos. É raro encontrar um escritor de romances que saiba escrever contos, da mesma maneira que é difícil encontrar um contista que esteja apto a escrever romances. Os melhores autores na atualidade conseguem pisar em ambos os estilos, mas são raros. Não afirmo que exista uma boa geração de contistas, mas sim autores que começam a dominar a arte da escrita de contos.

4.       Como os autores estão sendo contatados e selecionados?
Na verdade esse ponto, o contato com os autores, é o mais complicado em nossa meta de gerar uma obra representativa com o maior número possível de autores, pois muitos ainda são desconhecidos e estão afastados dos eixos de contato da Literatura Fantástica, mesmo os virtuais. Eu tenho solicitado aos escritores que participam de cada volume que me indiquem os seus conhecidos e aos poucos estamos formando uma rede onde, ao menos creio, em poucos volumes se estenderá por todos os escritores que possuem um mínimo de relacionamento dentro do ambiente literário. Qualquer autor pode se apresentar e submeter textos, bastando entrar em contato comigo. Não são os autores que passam por uma seleção, mas sim os contos, de tal forma que independente de renome ou ineditismo, todos podem participar dessa enorme cooperativa.

Richard Diegues é autor de Sob a luz do abajur e um dos criadores da série Necrópole.

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01. Fale um pouco sobre o livro Contos Imediatos.

Contos Imediatos é um projeto da Editora Terracota, dentro da série de antologias que essa editora de São Paulo lançou em 2009, ajudando, no processo, a substanciar a enorme onda de antologias de contos de ficção especulativa (ficção científica, fantasia e horror) que veio caracterizar este ano na literatura brasileira.

Essa antologia em particular traz doze contos de ficção científica, e um ótimo ensaio sobre o gênero, escrito pelo acadêmico sul-mato-grossense especializado em FC, Ramiro Giroldo. O elenco de doze autores combina veteranos que já estão desenvolvendo suas carreiras há algum tempo, e gente nova que aparece pela primeira vez ou quase: Jorge Luiz Calife, Luiz Bras, Ataíde Tartari, Tibor Moricz, Chico Pascoal, Ademir Pascale, Miguel Carqueija, Tatiana Alves, Mustafá Ali Kanso, Sidemar V. de Castro, João Batista Melo e André Carneiro. Apenas as histórias de Carqueija e Carneiro haviam aparecido antes em outros veículos, mas merecem a republicação.

Os editores da Terracota me convidaram para fazer a seleção dos contos, tendo em mente o fato de eu já ter alguma experiência, e por conhecer boa parte dos autores em atividade.

No conjunto, o que essa antologia faz é mostrar uma visão bastante diversificada do que é a FC a partir dos seus muitos subgêneros ou tendências possíveis — histórias melancólicas, cômicas, com suspense ou com surpresas, com ênfase nas sensações ou nas idéias e conceitos, ambientadas no presente ou no futuro, e com tratamentos diferenciados de estilo e linguagem.

02. Como foi o processo de seleção dos contos?

A princípio a Terracota divulgou editais convocando autores, postados no site da editora, no orkut e em blogs. Mas eu havia antecipado poucas submissões, já que, dos gêneros de ficção especulativa em voga atualmente, a FC é aquele ao qual menos autores novos se dedicam, em comparação com o horror e a fantasia, que possuem muito mais praticantes. Então convidei autores veteranos para enviarem seu material.

Foram 32 submissões, para chegarmos aos doze selecionados. Muitas histórias que não entraram eram interessantes mas não estavam dentro das diretrizes que eu recebi do pessoal da Terracota — de contos viáveis ao público jovem, por exemplo.

O processo também foi interessante em razão da Terracota ter pedido que eu não dissesse apenas “não, muito obrigado”, mas que desse um retorno mais detalhado dos problemas e virtudes dos contos que deixaram de entrar. É justamente o que eu acho importante que seja feito no mercado editorial brasileiro, algo que raramente se vê, porém. Algumas das histórias aceitas passaram por revisões solicitadas por mim. Todos foram muito profissionais. Ainda estou devendo um retorno crítico a alguns autores que não entraram.

03. A ficção-científica nacional tem conseguido se renovar?

Sim e não. O quadro de autores tem se renovado, e muito, mas a situação das tendências ainda está meio embolada. Há os neófilos (não confundir com os neófitos, já que alguns destes têm perto da minha idade ou mais), os pulps, os steampunks, os que escrevem horror com elementos de FC, os que desejam aproximar a FC do mainstream… O problema é que ainda não vimos os melhores trabalhos dessas tendências, ou que a retórica dos autores não bate com a realidade dos trabalhos escritos. Também temos visto poucas histórias que respondam à questão — persistente e cabeluda — do que é escrever FC no Brasil. Duas histórias de Contos Imediatos que chamam a atenção para esse aspecto são as de Ademir Pascale e a de Sidemar V. de Castro.

No quadro geral da FC brasileira, os autores a se acompanhar ainda são aqueles da Primeira e da Segunda Ondas, como André Carneiro, Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Carlos Orsi, Ivanir Calado, Jorge Luiz Calife, Miguel Carqueija e alguns outros. Os da Terceira Onda que me parecem ter todas as condições de produzir uma FC mais interessante são Clinton Davisson, Cristina Lasaitis, Jacques Barcia, Luiz Bras, Mustafá Ali Kanso e Tibor Moricz.

Por outro lado, o momento editorial é tão intenso que em mais um ano ou dois a situação toda pode estar melhor definida — com sorte, em torno de obras marcantes que realmente nos façam enxergar as coisas de modo diferente, quanto ao potencial do gênero no Brasil.

Uma virtude de Contos Imediatos é justamente demonstrar esses dois conjuntos possíveis de talentos, integrados em um livro que dá testemunho de que, mais do que firmar uma ou outra tendência como hegemônica, o que mais importa é termos exemplos fortes de cada uma delas e de outras mais. A FC brasileira só vai evoluir se for dinâmica e multifacetada.

04. E você como autor, o que tem para contar?

Estou lançando o primeiro livro de horror, Anjo de Dor, que faz parte do selo Pentagrama da Devir. É um romance que foi finalista do Projeto Nascente da USP e que conta com texto de orelha de Braulio Tavares e capa de Vagner Vargas. É horror tipo dark fantasy, ambientado no Brasil durante o começo da década de 1990, e que investiga algo da nossa problemática da violência.

Trambém tenho aparecido em algumas das antologias mais recentes, como Ficção de Polpa Volume 3 (com um conto de fantasia), Rumo à Fantasia (uma história de fantasia heróica), Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário (uma noveleta de FC steampunk) e Imaginários 1 (uma fantasia contemporânea). Na antologia Futuro Presente, de Nelson de Oliveira saiu “Descida do Maelström”, noveleta que faz parte de uma série de histórias de space opera militar, estrelada por Jonas Peregrino. Uma série paralela a essa eu estou desenvolvendo no projeto Portal de Nelson de Oliveira, as revistas Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker e Portal Fundação (até agora). Essa série paralela é estrelada por Bela Nunes, uma assassina profissional que vai cruzar o caminho de Peregrino mais adiante. A maioria dessas histórias tem recebido boas críticas dos fãs, então acho que estou numa boa fase.

01. Qual a idéia por trás da coletânea Galeria do Sobrenatural?

Foi para homenagear os 50 anos da série “Além da Imaginação”, de Rod Serling. um grande marco, e ainda hoje, referência da história da TV. Ela abiu caminho e estabeleceu fórmulas para diversas séries que vieram depois. Ainda hoje, por exemplo, podemos citar séries como Arquivo X, Lost, Fringe, entre tantas outras que que beberam da fonte de Serling.

Com seus enredos envolventes e formato inusitado para a época formaram toda uma escola de “contadores de histórias” da telinha. Os episódios abordavam histórias com elementos sobrenaturais ou inexplicáveis, como mundos paralelos, robôs, viagens no tempo, demônios, entre tantos tipos de situações fantásticas ambientadas na chamada “Zona do Crepúsculo”, ainda hoje servem de exemplo de como narrar uma história.

Mas, acima de tudo, muito além do que contar boas histórias de ficção científica, fantasia e horror, a série teve a virtude de fazer o telespectador pensar quando, nos anos 50, a TV estava mais interessada em entreter o público com programas inofensivos. Serling dava a chance de se discutir sobre assuntos que de outra forma jamais teriam passado pela censura das redes ou pela aprovação dos patrocinadores. Em pleno horário nobre, ele conseguia falar sobre temas polêmicos.

Em Além da Imaginação, o importante mesmo era colocar o telespectador diante de situações para refletir sobre a condição de vida que enfrentamos. E que, apesar de todas as dificuldades que nos são impostas, pudessemos enfrentar e melhorar como indivíduos. Para Serling, era fundamentar mostrar que a experiência humana vale à pena.

“Galeria do Sobrenatural” evoca esse espírito de reflexão e presta uma homenagem à criação de Rod Serling, que usou da ficção científica, da fantasia e do horror como instrumentos para expor suas idéias. Para ele, a condição humana só tem sentido se for para o aperfeiçoamento moral, espiritual e intelectual. Os seres humanos podem aprender a lidar com a vida de uma maneira mais satisfatória, tirando lições das situações em que se envolvem e onde é possível apresentar as contradições humanas. Sem isso, a existência humana se torna um pesadelo sem sentido, como Serling mesmo mostrou em várias de suas histórias.

02. Como foi o processo de seleção dos autores?

O processo foi feito de duas formas: através do envio de textos para a Terracota e de convite feito aos autores. Uma parte dos textos enviados veio através dos participantes do curso Prática de Escrita, promovido pela Terracota, com o apoio da Universidade Cruzeiro do Sul e do Grupo Labmind. Esse curso tem como objetivo fomentar, divulgar e prestigiar a criação artística e literária, além de publicar novos autores.

Já o convite para autores consagrados foi feito para aqueles que sabíamos ter alguma identificação com a série “Além da Imaginação” e estavam dispostos a participar com material relacionado.

Felizmente, tivemos uma boa acolhida e conseguimos juntar textos de dois ganhadores do Prêmio Jabuti (a Shirley Souza e o Braulio Tavares). Recebemos contos de Portugal (Luis Filipe Silva) e da Alemanha (Regina Drummond). E de autores comprometidos com o pensamento de Serling sobre a série.

03. Acha que coletâneas ajudam a chamar mais atenção do mercado para a literatura fantástica?

O mercado já está percebendo a força do gênero. E quando falo “mercado” falo não só das livrarias mas, das editoras. Hoje, temos um crescimento sem precedentes na publicação de livros, quer seja de terror, fantasia ou ficção científica. A literatura fantástica está em pleno crescimento. Conheço várias editoras grandes, por exemplo, que estão “caçando” histórias de fantasia. Algo impensável alguns anos atrás. Antes, quanto os autores apresentavam esse tipo de história, eram descartados rapidamente. Claro, que neste momento as editoras estão pensando em histórias juvenis, para os chamados jovens adultos. Mas, isso está mudando e com bastante rapidez.

E o significativo aumento dos lançamentos de seletas literárias só tem contribuido para aumentar essa percepção de mudança. Não importa se são antologias bancadas pelas editoras ou se pagas pelos autores. O gênero está cada vez mais presente nas prateleiras, saindo daquela “invisibilidade” que se falava tanto em anos anteriores. Portanto, que venham mais coletâneas!

Entretanto, quero ressaltar que para os autores “veteranos”, o importante é que eles produzam romances. O mercado brasileiro está precisando de textos mais longos de literatura fantástica. O momento é mais do que propício para apresentar romances às editoras que estão mais abertas para o gênero. Portanto, vamos tentar emplacar um romance de autor brasileiro na lista dos mais vendidos!

04. E para 2010, teremos mais um Fantasticon?

Sim, será no mesmo local onde aconteceu este ano: a Biblioteca Pública Viriato Correa. Eles gostaram bastante da experiência. Tiveram uma excelente repercussão, não só junto ao público em geral mas também com a Secretaria de Cultura. Assim, já fecharam comigo para que o evento se repita em 2010. Uma informação em primeira mão: o Fantasticon 2009 foi tão positivo, que eles insistiram em aumentar para mais um dia a programação. Ou seja, além do Sábado e Domingo repletos de atividades, teremos também a Sexta-feira para fazermos uma abertura oficial. Assim, o Fantasticon 2010 terá três dias.

A data ainda depende de alguns acertos e negociações mas, o importante a dizer é que o Fantasticon 2010 – IV Simpósio de Literatura Fantástica está confirmadíssimo. E com muitas novidades e atrações. Aguardem!