
Será
Release (por Nelson de Oliveira):
O progresso científico é como um machado nas mãos de um psicopata. Palavras de Einstein.
O primeiro romance de Ivan Hegenberg nos apresenta nada mais nada menos do que o futuro desse progresso. Qual seria ele? O mais assombrado e o mais assombroso possível, coordenado por máquinas inteligentes, suportado por homens e mulheres violentos e inseguros, às vezes esperançosos e confiantes, quase sempre desesperados ou deprimidos. O único futuro possível para o presente no qual vivemos: a continuação caótica do não menos caótico momento atual.
Dezenas de personagens, posicionadas pelo autor em pontos estratégicos, vão revelando pouco a pouco a estranha estrutura social e emocional dessa civilização alucinada, dessa sociedade em certos momentos muito mais angustiante do que as mais célebres distopias da ficção científica: a de George Orwell, em 1984, a de Aldous Huxley, no Admirável mundo novo, e a de Ray Bradbury, em Fahrenheit 451. Mesmo pertencendo a outra linhagem literária, A metamorfose e O castelo, de Franz Kafka, também lançam sua sombra sobre esse futuro.
Todos os fatos aqui revelados se passam no século XXIII. O oxigênio agora é retirado dos oceanos, a realidade virtual aboliu a distância espacial e a temporal (as pessoas podem viajar artificialmente para qualquer lugar e para qualquer época), a propriedade privada também foi abolida, a escassez de água e a superpopulação são as piores ameaças ao equilíbrio do planeta, as pessoas de carne e osso convivem (nem sempre tranqüilamente) com as pessoas virtuais, nos laboratórios os limites do macrocosmo e os do microcosmo são rompidos, as culpas e as neuroses podem ser extirpadas cirurgicamente da mente humana e agora a telepatia é a forma de comunicação mais sutil (até os sentimentos podem ser compartilhados).
A nossa espécie vive o apogeu da tecnologia e do cientificismo. Mas, ironia das ironias, essa situação é o reflexo da forte crise moral e existencial que devagar vai corrompendo as instituições e os indivíduos. Nesse sentido, apesar das possibilidades inimagináveis (a telepatia, a viagem ao centro da célula, a materialidade virtual), a sociedade futura continua estacionada espiritualmente no início do século XX. O fracasso das utopias, a fragmentação da consciência, a indústria cultural, a ideologia de direita e a de esquerda: nada mudou. Diante dos mesmos conflitos vividos por nossos antepassados, conflitos que levaram à Primeira e à Segunda Guerra Mundial, à Guerra do Vietnã e à do Iraque, fica bem claro que o progresso industrial e tecnológico não foi acompanhado pelo fortalecimento da subjetividade humana nem pelo enfraquecimento dos impulsos mais primitivos. Continuamos primatas egoístas e insaciáveis, dominados pelas paixões.
O sexo sádico e autodestrutivo, o fanatismo religioso e o instinto de agressão e dominação continuam testando os limites do amor e da sanidade. A última esperança para esse futuro sombrio e irracional é provavelmente o que a espécie humana vem buscando desde o início dos tempos: o verdadeiro contato com o sagrado. A procura desse contato último irá reunir e separar muitas das dezenas de personagens do romance. Elas precisam provar do sentimento do sagrado. Mesmo que esse sentimento esteja muitas vezes oculto numa cápsula de veneno.
Trecho do livro:
“Uma quinta-feira amanhece na longitude 170 leste, recebe a noite na longitude 40 oeste. Ovos de pássaros, de peixes e de répteis se rompem, maçãs caem das árvores, correm os rios, o mar em ondas visita as rochas. Magma quente percorre galerias subterrâneas, o vento agita as folhas, arrepia os bichos, transporta nuvens. No céu os gaviões atacam codornas, na mata leões devoram antílopes, no mar golfinhos amamentam seus filhotes. Sinais eletrônicos transcorrem o planeta, cai a chuva e estala o deserto sob o sol. Pensamentos e sensações se cruzam à deriva em trajeto pelo ar e milhões de mamíferos copulam no mesmo instante. Rebentam-se bolsas d’água, placas tectônicas rangem suavemente sob o solo, sementes germinam. Amanhece e anoitece no planeta que faz do calor e da luz fontes essenciais para a vida.”
Trecho de resenha (Ronaldo Cagiano):
“O universo narrativo de Ivan Hegenberg projeta-se para o século XXIII, uma época que sofre os efeitos de um caos já ancestral, que se manifesta na estagnação da vida, nos prejuízos causados pelos desequilíbrios sociais e ambientais, levando ao esgotamento não só da natureza, mas também à falta de perspectiva para a própria ciência, ainda que os seres tenham a seu favor todos os benefícios de um progresso alcançado nos séculos passados. Ao mapear esse novo ambiente em que, de um lado o homem depara-se com os resultados da evolução e, de outro, com as conseqüências da transformação da vida pela tecnologia, criando suas ilhas tanto de excelência produtiva quanto de isolamento, solidão e neurose, o autor compartilha com o leitor uma preocupação com os destinos da humanidade e do Planeta, questionando o modus vivendi de uma civilização cujos ícones vão sendo paulatinamente desmantelados”.
Puro enquanto
Terceiro livro de Ivan Hegenberg, Puro enquanto reflete dez anos de trabalho, tendo como ponto de partida a anotação de centenas de sonhos. Com influências ecléticas como os beatniks, Clarice Lispector e James Joyce, o livro se projeta em linguagem própria, tortuosa como o caminho onírico. A narrativa se faz pelo avesso, com um mergulho no inconsciente do qual emergem contornos e acontecimentos tão intensos quanto voláteis, já que o personagem, em coma, duela com a dificuldade de despertar.
O autor:
Ivan Hegenberg, não exatamente “O Terrível”, mas assumindo a alcunha de L’Enfant Le Terrible, publicou A Grande Incógnita (contos, 2005), Será (romance, 2007), e prepara para 2008, Puro Enquanto, um dos projetos vencedores do PAC (Programa de Ação Cultural). Nasceu em São Paulo, em 1980, formou-se em Artes Plásticas pela ECA-USP, e atualmente trabalha no mercado editorial.